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Universo Feminino 5 MIN DE LEITURA

As espiãs nunca vistas

As mais temidas espiãs em tempo de guerra e que (quase) ninguém foi capaz de reconhecer.

Julie Damame

Publicado

em

Foto: RyanMcGuire / Pixabay

“Não seja comum”.

Essa pequena frase ficou na minha cabeça por dias, depois de eu ter assistido a série “The Bletchley Circle: San Francisco” (Assistam!). A série de suspense acompanha a vida de quatro mulheres que ocuparam altos cargos na 2ª Guerra Mundial, em equipes de decodificação, espionagem, construção de armamentos e estratégia, e que, após o conflito, com o retorno dos homens, foram dispensadas da atuação em atividades que envolvessem segurança nacional.

Decidiram, então, iniciar um trabalho de elucidação de crimes considerados irresolúveis, para provar o valor e a capacidade que elas possuíam, especialmente, para a sociedade.

A narrativa traz um elemento muito interessante: analisar a complexa situação das mulheres que ocuparam posições com responsabilidades ainda mais significativas que seus maridos e/ou conhecidos durante a guerra, e que, para o “bom funcionamento social”, tiveram que permanecer em silêncio no pós-guerra, por exigência dos seus governos.

A realidade pode até ter sido um pouco diferente da narrativa da série, especialmente porque a maioria dos que participaram dos programas de segurança nacional, em territórios inimigos, não voltou. Contudo, os livros “The Wolves at the Door: The True Story of America’s Greatest Female Spy” (Judith L. Person), “Sisterhood of Spies” (Elizabeth P. McIntosh) e “Young, Brave & Beautiful” (Tania Szabo)” bem comprovam o papel fundamental que essas mulheres ocupam na história.

Casos como o da Virginia Hall, Princesa Noor-un-Nisa Inayat Khan, Violette Reine Elizabeth Bushell, Barbara Lauwers, Amy Elizabeth Thorpe, Maria Gulovich, Julia McWilliams Child, Marlene Dietrich, Elizabeth P. McIntosh, Genevieve Feinstein, Mary Louise Prather, Juliana Mickwitz, Odette Sansom Churchill, Josephine Baker, Hedy Lamarr, Nancy Grace Augusta Wake, e de muitas outras mulheres, inspiram.

Elas são as personificações do “não seja comum”; ou melhor, o de ser o que quiser e não o que se espera de você. Inclusive, quanto a participação em serviços ditos como, majoritariamente, masculinos.

Entre as inúmeras espiãs conhecidas, Virginia Hall se destaca, por conta do vasto conteúdo que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) dispõe a seu respeito, em seu site. Seguem alguns trechos que merecem menção (livre tradução):

“Natural de Baltimore, Virginia Hall Goillot é, talvez, mais conhecida por seu serviço heroico nas Operações Especiais Executivas Britânicas e no Escritório Americano de Serviços Estratégicos, durante a 2ª Guerra Mundial, contudo, é na CIA, que ela passou mais tempo. Uma das poucas mulheres relativamente seniores do serviço clandestino, ela trabalhou em vários setores da CIA até a sua aposentadoria compulsória, em 1966, quando tinha 60 anos. Virginia fez de TUDO, apesar de ter uma perna protética de madeira, que ela chamou de Cuthbert”.

“O historiador britânico M. R. D. Foot a apelidou de “agente indomável com um pé de bronze”. O oficial do Executivo de Operações Especiais (SOE), Philippe de Vomécourt, escreveu que ele serviu na França com essa “mulher extraordinária…com uma perna de madeira”. O autor francês Marcel Ruby disse que ela perdeu a perna em um acidente com um cavalo. Outros a fizeram perder um membro depois de cair embaixo de um bonde. O ex-oficial da CIA, Harry Mahoney, descreve uma missão da OSS, na qual ela saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas com sua “perna de pau na mochila”. A autora e ex-oficial da OSS, Elizabeth P. McIntosh, escreveu que ela desembarcou na França de barco. A Gestapo, polícia secreta nazista, colocou sua imagem em um cartaz de “procurada” e, uma vez, como a “mais perigosa entre os espiões aliados” (Judith L. Pearson. Guilford, CT: The Lyon Press, 2005, página 324).

Sua reputação fala por si. Virginia escolheu um caminho cheio de sacríficos e dificuldades, mas sua vontade de atuar no meio diplomático, impulsionou seu desejo. Teve que se condicionar a andar sem mancar para não chamar atenção, aprendeu mais de quatro idiomas, ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa, foi correspondente e informante, livrou espiões que haviam sido capturados e executou a maior rede de auxílio em território inimigo.

No final, “os britânicos fizeram dela, membro do Império Britânico. Os Estados Unidos, concederam a ela, o reconhecimento “Distinguished Service Cross”, por heroísmo extraordinário em conexão com operações militares contra o inimigo, a única mulher civil a receber essa medalha pelo serviço da Segunda Guerra Mundial”.

Infelizmente, pouco se conhece sobre o Brasil e suas espiãs também. Temos, como exemplos, Estela Borges Morato e Jean Sarkis.

A Conferência Nacional de Polícia Política, em 1943, tratou de assuntos como espionagem, contraespionagem, métodos de reconhecimento de agentes inimigos, técnicas de investigação e de interrogatório, e discutiu, sincronicamente, se o país poderia conceder às mulheres o papel de espiãs. Esse assunto foi muito bem analisado no artigo “Gênero e Serviço Secreto”, do autor Thiago da Silva Pacheco.

Essa conferência acabou chegando a uma despicienda conclusão: “Muitos dizem, sorrindo, que a mulher é um mal necessário. Não se pode viver com elas, mas tampouco viver sem elas. Esta última afirmação parece especialmente acertada no que se refere ao trabalho de espionagem. Verá o senhor que as mulheres tomavam uma parte importante em quase todos os trabalhos de espionagem mais importantes registrados na história” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Conferência Nacional de Polícia Política. Fundo DESPS, Notação 921, página 55).

Complementa Thiago: “Dependendo de seu desempenho, [as mulheres] poderiam alcançar status enquanto agente importante numa instituição fundamental para a sustentação do Estado, e até mesmo gozar de influência e respeito entre autoridades policiais e líderes dos grupos sociais postos sob vigilância”.

A título de comparação, em 1945, o governo brasileiro infiltrou Jean Sarkis no Partido Comunista. Ela acabou sendo presa como uma subversiva e, para não ser descoberta, recusou-se a usitar suas conexões com policiais para sair da prisão. Ficou encarcerada por dois anos, sofrendo severas punições.

Ao sair, Jean conseguiu o respeito do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, uma posição de destaque na Polícia Política, sendo considerada uma das espiãs mais bem-sucedidas do país:

“A requerente, de fato, colaborou, eficiente e patrioticamente com as autoridades deste Departamento (…) nas suas tarefas, se houve com tão elevado espírito de renúncia que, por ocasião da prisão da comunista Maria Afonso Martins, em companhia de quem se achava, e do que resultou a condenação de ambas, preferiu não revelar sua posição neste Departamento, evitando, assim, que a situação daquela agitadora fosse atenuada. Cumpriu mais de dois anos de prisão, durante a qual continuou prestando relevantes serviços, pois, elevada à condição de heroína do partido, suas possibilidades em informar aumentaram, ensejando este Departamento diligências proveitosas” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Pront. GB 22.327).

Ou seja, no Brasil ou no mundo, independentemente de quais foram as razões que possibilitaram às mulheres tais posições de trabalho – que, definitivamente, no início, eram puro retrato de uma estrutura social machista e conservadora –, permitiu que muitas delas pudessem quebrar tabus, abrir o mercado de trabalho para outras e redefinir seus papéis sociais à época.

Em 2018, quando Gina Haspel foi nomeada a primeira diretora da CIA, em meio a muita discussão por conta da sua trajetória profissional, ela admitiu, enfaticamente, sua dívida para com todas as “heroínas que nunca buscaram aplausos do público”. Por estas mulheres, mencionando Virginia Hall, foi possível sua nomeação, que desafiou barreiras e estereótipos de gênero.

Assim, apesar de serem espiãs nunca vistas, são parte de uma parcela de mulheres que segue nos permitindo ampliar nossos horizontes.

Precisamos dessas mulheres, cada vez mais.

Não sejamos comuns.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Deepfakes: manipulação digital na era da cybermisoginia

O que são Deepfakes? Qual é a razão das mulheres serem – novamente – as maiores vítimas de ataques?

Julie Damame

Publicado

em

Foto: Panda Security

“Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade”.

Infelizmente, a frase não é minha. É de Albert Einstein. Mas, toda vez que eu leio alguma matéria sobre como a revolução tecnológica transformou e/ou segue transformando as interações sociais, ressoa em mim como se fosse minha.

Faz tanto sentido e, ao mesmo tempo, é tão controversa.Em uma era em que esperávamos, entre as pessoas, aproximações ilimitadas e respeito às divergências e convivências virtuais, confrontamos-nos com um período de ódio, solidão e terror escalonado, graças às amarras e aos antigos conceitos, poderios e subjugações que conservamos.

Um estudo realizado pela Universidade de San Diego (Estados Unidos), em 2018, confirmou que os adolescentes mais expostos aos dispositivos eletrônicos manifestaram menores níveis de autoestima, satisfação com a vida e felicidade.

Igualmente, uma pesquisa produzida pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e publicada pela Agência Brasil (2017), concluiu: “A relação entre o uso da internet e o comportamento suicida e de autolesão foi particularmente associado ao vício no acesso a essa tecnologia, altos índices de navegação e contato com sites onde havia conteúdo relacionado ao tema”.

Além disso, e infelizmente, conceberam-se novas conceitualizações como “cyberbullying”(violência praticada através da internet ou outras tecnologias para insultar/intimidar/difamar), “revenge porn” (pornografia da vingança -exposição de imagens ou vídeos íntimos de alguém por conta do sentimento de vingança), “slut shaming” ou “cybermisoginia” (culpabilização/constrangimento por ser mulher, especialmente nas redes sociais) para a era digital

De modo que, a sociedade precisará se inteirar e tratar tais impasses e dilemas cada vez mais. Em uma verdadeira dicotomia. E o mais curioso é que também persiste uma constante nesse sistema: as vítimas são sempre as mesmas, dentro ou fora do mundo virtual.

Por exemplo, para o diretor da organização Witness, Sam Gregory, as vítimas mais afetadas por assédio online (de qualquer tipo) são as mulheres. Em entrevista ao jornal Estadão, Sam contou que uma análise do grupo DeepTrace Labs comprovou que cerca de 96% dos deepfakes são pornográficos ou imagens de sexo não consensuais.

Com a terminologia exposta, indago: o que são Deepfakes? Qual é a razão das mulheres serem – novamente – as maiores vítimas de ataques?

Para isso, convidei o Rodrigo Sassi, fundador da Inpyx – Software & Data House, especialista em inteligência artificial e também colunista do jornal, para explicar um pouco sobre o que é e como funciona o Deepfake:

“A técnica do Deepfake se baseia na manipulação de vídeos por softwares com inteligência artificial com a finalidade de simular o rosto de uma pessoa em outra ou de alterar discursos.

Originalmente, surgiu para o humor e entretenimento em aplicativos como o SnapChat. Com o sucesso, o Instagram (do Facebook) inaugurou também diversos filtros para serem aplicados no próprio rosto: capacetes vikings, óculos super estilosos, possibilidade de trocar de rosto com seus amigos ou com o seu gatinho, e de virar um E.T!
Uma diversão completa e garantida.

Logo em seguida, os desenvolvedores de conteúdo perceberam o enorme potencial em acrescentar tal técnica em sátiras e críticas políticas. Destarte, começaram a colocar rosto de políticos e figuras públicas em situações inusitadas com discursos irônicos. Até então, era uma “brincadeira”, em formato de crítica social ou política sobre os líderes e governantes de todos os países. Não havia um tom de malícia exacerbado. Contudo, a evolução tecnológica dificilmente para por aí.

Sem pormenorizar, para criar um deepfake, você precisa ensinar para um sistema quais são todas as possíveis expressões de dois rostos, a fim de simular as representações de um rosto no outro ou suas manifestações.

Denominamos esse processo de “aprendizagem de máquina” e pode levar de alguns dias, até meses. Por exemplo, quando o Instagram lançou seus filtros de troca de rostos, o software já havia analisado e treinado em todas as suas fotos para poder aplicar no rosto do seu amigo.

A grande problemática do próprio desenvolvimento tecnológico e da capacidade de processamento dessas máquinas está na produção. Houve uma redução exponencial de tempo para criação desses vídeos!

O que antes levava 30 dias, hoje leva em torno de 4 ou 5, o que permite uma produção muito maior de materiais com menor custo. Além disso, verificou-se uma maior qualidade nos vídeos. Tornaram-se tão bons que são praticamente imperceptíveis aos olhos humanos!

Com essa agilidade na produção dos vídeos e alta qualidade do resultado, geraram aplicativos como o Zao, que coloca o rosto do usuário em filmes icônicos de Hollywood em apenas alguns cliques e que parecem autênticos.

Porém, não tardou para incluírem outros objetivos no uso do “deepfake” e suas produções. Objetivos além dos iniciais, objetivos que são altamente maliciosos e que causam profundos danos às vítimas.

São os casos de difamação e desmoralização de pessoas (conhecidas ou não) na internet. Sabe-se que as mulheres são alvos substanciais dessas montagens e que constantemente são vítimas de Revenge Porn (pornografia da vingança) com vídeos deepfakes. Ou seja, são ameaçadas e chantageadas com vídeos sexuais que nunca fizeram por, simplesmente, a título de exemplo, terminarem um relacionamento.

Inclusive, já lançaram um aplicativo no mercado para fazer as mulheres parecerem estar nuas. É lamentável.

O que antes tinha um viés de crítica social ou política e até mesmo de diversão; hoje, os deepfakes podem ser considerados os maiores armamentos na Guerra Contra a Verdade de acordo com a jornalista Nina Iacono Brown, da revista Slate.

Por essas e outras, o Facebook contratou mais de 50 especialistas com formação técnica, política, mídia, jurídica, cívica e acadêmica para orientar o desenvolvimento de um sistema de identificação de alteração em vídeos.

Ao identificar o conteúdo falso, será reduzido a exibição orgânica nos feeds, proibição do impulsionamento da postagem e ainda notificação ao usuário de que se trata de um vídeo falso e modificado por computador quando este tentar compartilhar.

Será que ao ampliarmos o método de combate aos deepfakes para outras empresas e meios de comunicação, melhoraremos o problema?”. Concluo e complemento o questionamento do Rodrigo: será que isso é suficiente? Ou, também, precisaremos de posicionamentos específicos sobre a matéria por meio de políticas públicas e legislações?

E mais, será que ao integrarmos as possíveis soluções resolveremos o problema de fato? Já houve alguma resolução nesse sentido no passado?

Afinal, como explanado, estamos na era da inovação, em tempos distintos e, ainda assim, as mulheres continuam sendo um grupo substancial de vítimas. Por isso, proponho uma discussão: o problema está no modo/meio como é exercido o crime ou em quem/por que exerce?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Papo–furado, “Salve Jorge” e a invisibilidade das mulheres traficadas

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo?

Julie Damame

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Foto: Kat J / Unsplash

Não é papo-furado. Mas, parte considerável da sociedade brasileira insiste em culpar as vítimas dos crimes de tráfico e exploração da prostituição com preconceito e falta de informação:

43% acreditam que o tráfico de mulheres é realizado com o consentimento das vítimas. 55% acreditam que as vítimas estão em busca de vida fácil (Percepção da Sociedade sobre o Tráfico de Mulheres (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016)).

E, é nessa falta/falha de conhecimento/comunicação que acontecem circunstâncias que poderiam ser evitadas diariamente!

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo? Sim, é o tráfico de seres humanos. A novela “Salve Jorge” (2012/2013), de autoria de Glória Perez, bem denunciou essa realidade.

Calcula-se um lucro anual de, aproximadamente, 32 bilhões de dólares. Mais de 2,4 milhões de pessoas são traficadas por ano, globalmente.

Cerca de 83% das vítimas são mulheres, entre 18 e 29 anos, pobres e com baixa escolaridade. Sendo a maioria para fins de exploração sexual (43%) (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Mas, esta não é a única finalidade. O trabalho análogo à escravidão, a servidão doméstica, a adoção ilegal de crianças e adolescentes, a venda de órgãos, pele, cabelo e ossos (!!!), também representam uma parcela significativa.

A autora Tânia Teixeira Laky de Sousa, do livro “Tráfico Internacional de Mulheres – nova face de uma velha escravidão”, discorre sobre a temática:

“Embora a maior quantidade seja para exploração sexual comercial de mulheres, nós temos um crime bárbaro que ninguém estuda, nem pesquisadores, pois é muito difícil chegar a ele. É o tráfico de órgãos, tecidos, ossos e cabelos. Antes, falávamos só de tráfico de órgãos, mas querem os ossos para transplantes dentários e cabelo vale ouro. Então, a pessoa é desmontada, como se fosse um desmanche de carro para venda de peças. Na Campanha da Fraternidade, que focou o tema do tráfico de pessoas, nós colocamos os valores dos órgãos. Coração vale 100 mil dólares, pulmão tanto, rim tanto, córnea tanto. A pessoa é desmanchada para o crime organizado. Além de que nós não trabalhamos no Brasil, a questão do desaparecimento de pessoas. Quer dizer que as pessoas desaparecem, são abduzidas, nunca mais aparecem… Ou, às vezes, somem e depois aparecem, sem que haja essa informação, ou as pessoas são mortas e enterradas como indigentes. Isso tem que ser verificado. Será que foram para o desmanche de órgãos?”.

A gravidade do assunto foi veemente reconhecida por instituições internacionais, em 2000, na célebre “Convenção de Palermo das Nações Unidas”. A partir daí, sua definição foi complementada pelo “Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças” e o “Protocolo Relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea”.

Em 2004, o governo brasileiro ratificou a Convenção de Palermo. E, pasmem, o Brasil foi considerado país de origem, destino e circulação, para o tráfico de pessoas. De modo complementar, em 2010, no relatório Globalização do Crime (ONU), o Brasil aparece como o “maior fornecedor de escravas sexuais da América Latina” (Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Crianças, Mulheres e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual – Pestraf).

A realidade é que sabemos disso, sim. Quem já não escutou sobre algum parente/vizinho/conhecido que casou com alguma menina, bem mais nova, simplesmente, para ser “bem cuidado”? Que acabou por negociar com os pais dela, que, em sua maioria, estão em situação de vulnerabilidade, com a abordagem de tomar conta ou em troca de alguns trocados? Ou, quem já não sofreu algum assédio suspeito para um “trabalho”/“intercâmbio” dos sonhos?…

Tantos são os casos, todos emblemáticos e pouco discutidos.

A novela “Salve Jorge” tentou expor esse crime invisível, baseando-se em histórias reais e sob a perspectiva da exploração sexual. Inclusive, a partir de três símbolos da luta contra o tráfico de mulheres, Simone Borges, Kelly Fernanda Martins e Ana Lúcia Furtado.

Simone, que pretendia trabalhar em um bar, na Espanha, a fim de juntar dinheiro para o enxoval do casamento, acabou sendo obrigada a se prostituir.

Kelly, que viajou para trabalhar como garçonete em Israel, logo na chegada, teve o seu passaporte confiscado pela máfia russa e foi forçada a manter relações sexuais com mais de 10 homens por dia, em jornadas de, aproximadamente, 13 horas.

Ambas mortas.

De modo semelhante, Ana Lúcia Furtado, prima de Kelly, passou pela prostituição no exterior, mas acabou resgatada, graças a uma advogada que acreditou na sua história. Ao voltar ao Brasil, narrou todo o seu drama à autora da novela, confirmando que conseguiram salvar um total de oito vítimas do tráfico e prostituição, todas mulheres brasileiras.

A descrição dos acontecimentos converge com o que é estudado pelos pesquisadores. Conforme o Relatório Global (2014), realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, os fluxos transregionais de tráfico de pessoas são detectados em países ricos, como os do Oriente Médio, da Europa Ocidental e da América do Norte. E os países de origem, das vítimas, são os do “Sul e Leste Global”, especialmente, as regiões do Leste e do Sul da Ásia, da América Latina, das Bahamas e da África.

Verifica-se uma correlação entre o PIB do país de destino e o do país de origem. Constata-se, portanto, que as vítimas, em sua maioria, têm uma expectativa de melhora de vida com o trabalho (e não em uma vida fácil, totalmente o contrário do que alguns pensam!). Querem emigrar devido a conflitos e guerras em seus países, às dificuldades econômicas, às instabilidades política e social, aos desastres naturais, à ineficácia das leis e ao desinteresse do Estado, entre outros (Global Report On Trafficking In Persons, 2014).

No caso específico do Brasil, nota-se que a insegurança socioeconômica e a baixa escolaridade refletem na decisão de mudança. Geralmente, as mulheres vítimas de exploração sexual são jovens e possuem filhos – o que repercute no ímpeto pela mudança e na maior facilidade em acreditar nas promessas.

A abordagem é muito semelhante em todas as espécies de tráfico de pessoas. Os aliciadores se aproximam das vítimas através de parentes, de redes sociais e/ou amigos. São pessoas que ostentam um estilo de vida luxuoso e com alto poder aquisitivo, atraindo suas “presas” por meio de promessas de melhores condições de vida, mediante empregos, prostituição lucrativa, casamento ou outros.

A vítima sofre ameaças, maus-tratos, estupros, abusos, negligências, exposições a doenças e humilhações periódicas dos clientes, aliciadores e chefes das organizações criminosas. Até mesmo, os aliciadores podem estar em conjuntura semelhante.

Não preciso nem comentar o tamanho dos traumas psicológicos e físicos que as vítimas sofrem. Se não acabarem, antes, mortas.

Exatamente por isso, no Brasil, diversas políticas públicas foram adotadas para o combate a esse tipo de crime, como a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (PNETP) e os planos nacionais. Ademais, contamos com os núcleos e comitês especializados, a cooperação jurídica internacional sobre os crimes transacionais, o “Ligue 180” (central para denúncias que funciona 24 horas) e os postos/centros de acolhimento.

Porém, tudo isso ainda não é suficiente. As políticas podem estar sendo executadas, mas não com a divulgação necessária. A sociedade brasileira sabe da existência do crime, todavia ignora que os criminosos estejam “logo aí” e em tamanha proporção!

Pesquisas confirmam que 87% dos brasileiros concordam que faltam informações sobre tema do tráfico na mídia (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Este é o papel – verdadeiro – que a novela “Salve Jorge” teve. Denunciar.

Independentemente, se nós não vemos esse fato de forma expressiva no nosso cotidiano, se nós pensamos que tudo não passa de “papo furado de marketing social”: tráfico de pessoas, especialmente de mulheres e crianças, existe. Em larga escala. Todos os dias. No mundo todo.

E o conhecimento disseminado sobre a matéria é o primeiro passo para afastarmos as possíveis vítimas de situações perigosas ou duvidosas.

Precisamos persistir e continuar falando sobre o tema. Todos nós somos responsáveis!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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