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Universo Feminino

As espiãs nunca vistas

As mais temidas espiãs em tempo de guerra e que (quase) ninguém foi capaz de reconhecer.

Julie Damame

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em

Foto: RyanMcGuire / Pixabay

“Não seja comum”.

Essa pequena frase ficou na minha cabeça por dias, depois de eu ter assistido a série “The Bletchley Circle: San Francisco” (Assistam!). A série de suspense acompanha a vida de quatro mulheres que ocuparam altos cargos na 2ª Guerra Mundial, em equipes de decodificação, espionagem, construção de armamentos e estratégia, e que, após o conflito, com o retorno dos homens, foram dispensadas da atuação em atividades que envolvessem segurança nacional.

Decidiram, então, iniciar um trabalho de elucidação de crimes considerados irresolúveis, para provar o valor e a capacidade que elas possuíam, especialmente, para a sociedade.

A narrativa traz um elemento muito interessante: analisar a complexa situação das mulheres que ocuparam posições com responsabilidades ainda mais significativas que seus maridos e/ou conhecidos durante a guerra, e que, para o “bom funcionamento social”, tiveram que permanecer em silêncio no pós-guerra, por exigência dos seus governos.

A realidade pode até ter sido um pouco diferente da narrativa da série, especialmente porque a maioria dos que participaram dos programas de segurança nacional, em territórios inimigos, não voltou. Contudo, os livros “The Wolves at the Door: The True Story of America’s Greatest Female Spy” (Judith L. Person), “Sisterhood of Spies” (Elizabeth P. McIntosh) e “Young, Brave & Beautiful” (Tania Szabo)” bem comprovam o papel fundamental que essas mulheres ocupam na história.

Casos como o da Virginia Hall, Princesa Noor-un-Nisa Inayat Khan, Violette Reine Elizabeth Bushell, Barbara Lauwers, Amy Elizabeth Thorpe, Maria Gulovich, Julia McWilliams Child, Marlene Dietrich, Elizabeth P. McIntosh, Genevieve Feinstein, Mary Louise Prather, Juliana Mickwitz, Odette Sansom Churchill, Josephine Baker, Hedy Lamarr, Nancy Grace Augusta Wake, e de muitas outras mulheres, inspiram.

Elas são as personificações do “não seja comum”; ou melhor, o de ser o que quiser e não o que se espera de você. Inclusive, quanto a participação em serviços ditos como, majoritariamente, masculinos.

Entre as inúmeras espiãs conhecidas, Virginia Hall se destaca, por conta do vasto conteúdo que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) dispõe a seu respeito, em seu site. Seguem alguns trechos que merecem menção (livre tradução):

“Natural de Baltimore, Virginia Hall Goillot é, talvez, mais conhecida por seu serviço heroico nas Operações Especiais Executivas Britânicas e no Escritório Americano de Serviços Estratégicos, durante a 2ª Guerra Mundial, contudo, é na CIA, que ela passou mais tempo. Uma das poucas mulheres relativamente seniores do serviço clandestino, ela trabalhou em vários setores da CIA até a sua aposentadoria compulsória, em 1966, quando tinha 60 anos. Virginia fez de TUDO, apesar de ter uma perna protética de madeira, que ela chamou de Cuthbert”.

“O historiador britânico M. R. D. Foot a apelidou de “agente indomável com um pé de bronze”. O oficial do Executivo de Operações Especiais (SOE), Philippe de Vomécourt, escreveu que ele serviu na França com essa “mulher extraordinária…com uma perna de madeira”. O autor francês Marcel Ruby disse que ela perdeu a perna em um acidente com um cavalo. Outros a fizeram perder um membro depois de cair embaixo de um bonde. O ex-oficial da CIA, Harry Mahoney, descreve uma missão da OSS, na qual ela saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas com sua “perna de pau na mochila”. A autora e ex-oficial da OSS, Elizabeth P. McIntosh, escreveu que ela desembarcou na França de barco. A Gestapo, polícia secreta nazista, colocou sua imagem em um cartaz de “procurada” e, uma vez, como a “mais perigosa entre os espiões aliados” (Judith L. Pearson. Guilford, CT: The Lyon Press, 2005, página 324).

Sua reputação fala por si. Virginia escolheu um caminho cheio de sacríficos e dificuldades, mas sua vontade de atuar no meio diplomático, impulsionou seu desejo. Teve que se condicionar a andar sem mancar para não chamar atenção, aprendeu mais de quatro idiomas, ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa, foi correspondente e informante, livrou espiões que haviam sido capturados e executou a maior rede de auxílio em território inimigo.

No final, “os britânicos fizeram dela, membro do Império Britânico. Os Estados Unidos, concederam a ela, o reconhecimento “Distinguished Service Cross”, por heroísmo extraordinário em conexão com operações militares contra o inimigo, a única mulher civil a receber essa medalha pelo serviço da Segunda Guerra Mundial”.

Infelizmente, pouco se conhece sobre o Brasil e suas espiãs também. Temos, como exemplos, Estela Borges Morato e Jean Sarkis.

A Conferência Nacional de Polícia Política, em 1943, tratou de assuntos como espionagem, contraespionagem, métodos de reconhecimento de agentes inimigos, técnicas de investigação e de interrogatório, e discutiu, sincronicamente, se o país poderia conceder às mulheres o papel de espiãs. Esse assunto foi muito bem analisado no artigo “Gênero e Serviço Secreto”, do autor Thiago da Silva Pacheco.

Essa conferência acabou chegando a uma despicienda conclusão: “Muitos dizem, sorrindo, que a mulher é um mal necessário. Não se pode viver com elas, mas tampouco viver sem elas. Esta última afirmação parece especialmente acertada no que se refere ao trabalho de espionagem. Verá o senhor que as mulheres tomavam uma parte importante em quase todos os trabalhos de espionagem mais importantes registrados na história” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Conferência Nacional de Polícia Política. Fundo DESPS, Notação 921, página 55).

Complementa Thiago: “Dependendo de seu desempenho, [as mulheres] poderiam alcançar status enquanto agente importante numa instituição fundamental para a sustentação do Estado, e até mesmo gozar de influência e respeito entre autoridades policiais e líderes dos grupos sociais postos sob vigilância”.

A título de comparação, em 1945, o governo brasileiro infiltrou Jean Sarkis no Partido Comunista. Ela acabou sendo presa como uma subversiva e, para não ser descoberta, recusou-se a usitar suas conexões com policiais para sair da prisão. Ficou encarcerada por dois anos, sofrendo severas punições.

Ao sair, Jean conseguiu o respeito do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, uma posição de destaque na Polícia Política, sendo considerada uma das espiãs mais bem-sucedidas do país:

“A requerente, de fato, colaborou, eficiente e patrioticamente com as autoridades deste Departamento (…) nas suas tarefas, se houve com tão elevado espírito de renúncia que, por ocasião da prisão da comunista Maria Afonso Martins, em companhia de quem se achava, e do que resultou a condenação de ambas, preferiu não revelar sua posição neste Departamento, evitando, assim, que a situação daquela agitadora fosse atenuada. Cumpriu mais de dois anos de prisão, durante a qual continuou prestando relevantes serviços, pois, elevada à condição de heroína do partido, suas possibilidades em informar aumentaram, ensejando este Departamento diligências proveitosas” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Pront. GB 22.327).

Ou seja, no Brasil ou no mundo, independentemente de quais foram as razões que possibilitaram às mulheres tais posições de trabalho – que, definitivamente, no início, eram puro retrato de uma estrutura social machista e conservadora –, permitiu que muitas delas pudessem quebrar tabus, abrir o mercado de trabalho para outras e redefinir seus papéis sociais à época.

Em 2018, quando Gina Haspel foi nomeada a primeira diretora da CIA, em meio a muita discussão por conta da sua trajetória profissional, ela admitiu, enfaticamente, sua dívida para com todas as “heroínas que nunca buscaram aplausos do público”. Por estas mulheres, mencionando Virginia Hall, foi possível sua nomeação, que desafiou barreiras e estereótipos de gênero.

Assim, apesar de serem espiãs nunca vistas, são parte de uma parcela de mulheres que segue nos permitindo ampliar nossos horizontes.

Precisamos dessas mulheres, cada vez mais.

Não sejamos comuns.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Papo–furado, “Salve Jorge” e a invisibilidade das mulheres traficadas

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo?

Julie Damame

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Foto: Kat J / Unsplash

Não é papo-furado. Mas, parte considerável da sociedade brasileira insiste em culpar as vítimas dos crimes de tráfico e exploração da prostituição com preconceito e falta de informação:

43% acreditam que o tráfico de mulheres é realizado com o consentimento das vítimas. 55% acreditam que as vítimas estão em busca de vida fácil (Percepção da Sociedade sobre o Tráfico de Mulheres (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016)).

E, é nessa falta/falha de conhecimento/comunicação que acontecem circunstâncias que poderiam ser evitadas diariamente!

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo? Sim, é o tráfico de seres humanos. A novela “Salve Jorge” (2012/2013), de autoria de Glória Perez, bem denunciou essa realidade.

Calcula-se um lucro anual de, aproximadamente, 32 bilhões de dólares. Mais de 2,4 milhões de pessoas são traficadas por ano, globalmente.

Cerca de 83% das vítimas são mulheres, entre 18 e 29 anos, pobres e com baixa escolaridade. Sendo a maioria para fins de exploração sexual (43%) (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Mas, esta não é a única finalidade. O trabalho análogo à escravidão, a servidão doméstica, a adoção ilegal de crianças e adolescentes, a venda de órgãos, pele, cabelo e ossos (!!!), também representam uma parcela significativa.

A autora Tânia Teixeira Laky de Sousa, do livro “Tráfico Internacional de Mulheres – nova face de uma velha escravidão”, discorre sobre a temática:

“Embora a maior quantidade seja para exploração sexual comercial de mulheres, nós temos um crime bárbaro que ninguém estuda, nem pesquisadores, pois é muito difícil chegar a ele. É o tráfico de órgãos, tecidos, ossos e cabelos. Antes, falávamos só de tráfico de órgãos, mas querem os ossos para transplantes dentários e cabelo vale ouro. Então, a pessoa é desmontada, como se fosse um desmanche de carro para venda de peças. Na Campanha da Fraternidade, que focou o tema do tráfico de pessoas, nós colocamos os valores dos órgãos. Coração vale 100 mil dólares, pulmão tanto, rim tanto, córnea tanto. A pessoa é desmanchada para o crime organizado. Além de que nós não trabalhamos no Brasil, a questão do desaparecimento de pessoas. Quer dizer que as pessoas desaparecem, são abduzidas, nunca mais aparecem… Ou, às vezes, somem e depois aparecem, sem que haja essa informação, ou as pessoas são mortas e enterradas como indigentes. Isso tem que ser verificado. Será que foram para o desmanche de órgãos?”.

A gravidade do assunto foi veemente reconhecida por instituições internacionais, em 2000, na célebre “Convenção de Palermo das Nações Unidas”. A partir daí, sua definição foi complementada pelo “Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças” e o “Protocolo Relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea”.

Em 2004, o governo brasileiro ratificou a Convenção de Palermo. E, pasmem, o Brasil foi considerado país de origem, destino e circulação, para o tráfico de pessoas. De modo complementar, em 2010, no relatório Globalização do Crime (ONU), o Brasil aparece como o “maior fornecedor de escravas sexuais da América Latina” (Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Crianças, Mulheres e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual – Pestraf).

A realidade é que sabemos disso, sim. Quem já não escutou sobre algum parente/vizinho/conhecido que casou com alguma menina, bem mais nova, simplesmente, para ser “bem cuidado”? Que acabou por negociar com os pais dela, que, em sua maioria, estão em situação de vulnerabilidade, com a abordagem de tomar conta ou em troca de alguns trocados? Ou, quem já não sofreu algum assédio suspeito para um “trabalho”/“intercâmbio” dos sonhos?…

Tantos são os casos, todos emblemáticos e pouco discutidos.

A novela “Salve Jorge” tentou expor esse crime invisível, baseando-se em histórias reais e sob a perspectiva da exploração sexual. Inclusive, a partir de três símbolos da luta contra o tráfico de mulheres, Simone Borges, Kelly Fernanda Martins e Ana Lúcia Furtado.

Simone, que pretendia trabalhar em um bar, na Espanha, a fim de juntar dinheiro para o enxoval do casamento, acabou sendo obrigada a se prostituir.

Kelly, que viajou para trabalhar como garçonete em Israel, logo na chegada, teve o seu passaporte confiscado pela máfia russa e foi forçada a manter relações sexuais com mais de 10 homens por dia, em jornadas de, aproximadamente, 13 horas.

Ambas mortas.

De modo semelhante, Ana Lúcia Furtado, prima de Kelly, passou pela prostituição no exterior, mas acabou resgatada, graças a uma advogada que acreditou na sua história. Ao voltar ao Brasil, narrou todo o seu drama à autora da novela, confirmando que conseguiram salvar um total de oito vítimas do tráfico e prostituição, todas mulheres brasileiras.

A descrição dos acontecimentos converge com o que é estudado pelos pesquisadores. Conforme o Relatório Global (2014), realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, os fluxos transregionais de tráfico de pessoas são detectados em países ricos, como os do Oriente Médio, da Europa Ocidental e da América do Norte. E os países de origem, das vítimas, são os do “Sul e Leste Global”, especialmente, as regiões do Leste e do Sul da Ásia, da América Latina, das Bahamas e da África.

Verifica-se uma correlação entre o PIB do país de destino e o do país de origem. Constata-se, portanto, que as vítimas, em sua maioria, têm uma expectativa de melhora de vida com o trabalho (e não em uma vida fácil, totalmente o contrário do que alguns pensam!). Querem emigrar devido a conflitos e guerras em seus países, às dificuldades econômicas, às instabilidades política e social, aos desastres naturais, à ineficácia das leis e ao desinteresse do Estado, entre outros (Global Report On Trafficking In Persons, 2014).

No caso específico do Brasil, nota-se que a insegurança socioeconômica e a baixa escolaridade refletem na decisão de mudança. Geralmente, as mulheres vítimas de exploração sexual são jovens e possuem filhos – o que repercute no ímpeto pela mudança e na maior facilidade em acreditar nas promessas.

A abordagem é muito semelhante em todas as espécies de tráfico de pessoas. Os aliciadores se aproximam das vítimas através de parentes, de redes sociais e/ou amigos. São pessoas que ostentam um estilo de vida luxuoso e com alto poder aquisitivo, atraindo suas “presas” por meio de promessas de melhores condições de vida, mediante empregos, prostituição lucrativa, casamento ou outros.

A vítima sofre ameaças, maus-tratos, estupros, abusos, negligências, exposições a doenças e humilhações periódicas dos clientes, aliciadores e chefes das organizações criminosas. Até mesmo, os aliciadores podem estar em conjuntura semelhante.

Não preciso nem comentar o tamanho dos traumas psicológicos e físicos que as vítimas sofrem. Se não acabarem, antes, mortas.

Exatamente por isso, no Brasil, diversas políticas públicas foram adotadas para o combate a esse tipo de crime, como a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (PNETP) e os planos nacionais. Ademais, contamos com os núcleos e comitês especializados, a cooperação jurídica internacional sobre os crimes transacionais, o “Ligue 180” (central para denúncias que funciona 24 horas) e os postos/centros de acolhimento.

Porém, tudo isso ainda não é suficiente. As políticas podem estar sendo executadas, mas não com a divulgação necessária. A sociedade brasileira sabe da existência do crime, todavia ignora que os criminosos estejam “logo aí” e em tamanha proporção!

Pesquisas confirmam que 87% dos brasileiros concordam que faltam informações sobre tema do tráfico na mídia (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Este é o papel – verdadeiro – que a novela “Salve Jorge” teve. Denunciar.

Independentemente, se nós não vemos esse fato de forma expressiva no nosso cotidiano, se nós pensamos que tudo não passa de “papo furado de marketing social”: tráfico de pessoas, especialmente de mulheres e crianças, existe. Em larga escala. Todos os dias. No mundo todo.

E o conhecimento disseminado sobre a matéria é o primeiro passo para afastarmos as possíveis vítimas de situações perigosas ou duvidosas.

Precisamos persistir e continuar falando sobre o tema. Todos nós somos responsáveis!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Não somos impostoras!

As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso.

Julie Damame

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Septian Simon/Unsplash

“Sinto-me uma fraude completa! ”.

Acredite, esta é uma das mais recorrentes frases que habitam os pensamentos das mulheres mais bem-sucedidas do mundo.

Reconhecer-se uma fraude, não admitir suas conquistas ou não se identificar com um determinado cargo profissional, define a chamada síndrome da impostora; uma perturbação que acomete muitas de nós, mulheres, e que faz com que nos sintamos incapazes de ocupar postos que, predominantemente, são conquistados por homens.

Durante a I Guerra Mundial, na Europa, e a partir da década de 70, no Brasil, as mulheres entraram para mercado de trabalho de maneira massiva. Até então, elas cumpriam, majoritariamente, as funções consideradas como típicas femininas – os cuidados para com a família, com o lar e os de higiene e beleza pessoal (BONIATTI, 2014).

Contudo, mesmo trabalhando “fora”, não fomos desobrigadas das funções domésticas. Ou seja, houve (e segue existindo) a acumulação de tarefas, caracterizando a dupla jornada de trabalho.

Para se ter uma ideia, no Brasil, em 2016, as mulheres se dedicaram aos cuidados com os familiares e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais, em horas, que os homens (Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil (ISMB– IBGE)).

Exaustivo, não?

Presentemente, muitas mulheres, em conversas informais com suas amigas, vangloriam-se: “Meu marido é ótimo, ele me ajuda muito em casa”. Esta constatação, por si só, transmite uma ideia equivocada de que a obrigação de cuidar da casa é somente da mulher. Subentende-se que todas as tarefas domésticas cabem a ela e que o companheiro a ajuda, se quiser. Quando, na realidade, a obrigação é de todos os membros da família.

Entretanto, gradativamente, a sociedade, como um todo, está vivenciando uma percepção mais solidária quanto a esse assunto.

Atualmente, a inserção das mulheres no mercado de trabalho é crescente, e se deve, de acordo com Bruschini e Puppin (2004), ao aumento do nível de escolaridade e à intenção de qualificação específica profissional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2018), acrescenta, como motivos, a redução da fecundidade, a disseminação de métodos contraceptivos e o maior acesso à informação.

Será que essa acumulação de tarefas prejudica a performance da mulher no mercado de trabalho?

O próprio IBGE responde: “Mulheres que necessitam conciliar trabalho remunerado com os afazeres domésticos e cuidados, em muitos casos, acabam por trabalhar em ocupações com carga horária reduzida”.

Parece justo?

Creio que a resposta seja pessoal. Para mim, não deveria haver opção única: sucesso no trabalho ou no âmbito familiar. Nem o ônus exclusivo às mulheres para as tarefas domésticas. Se é possível a divisão de obrigações com parceiros ou terceiros, por que não escolher ambas as opções?

É claro que nada é tão simples assim. As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso. Essas dificuldades podem ser intrapessoais (autocontrole, autoconhecimento, etc.), interpessoais (relações entre indivíduos) ou extrapessoais (problemáticas do setor, desigualdades no mercado de trabalho, etc.).

A mais famosa barreira intrapessoal é a conhecida “Síndrome/Fenômeno da Impostora”.

Em 1978, o termo foi idealizado por duas psicólogas norte-americanas, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, a partir de entrevistas feitas com mulheres altamente bem-sucedidas, a fim de compreender as dificuldades em atingir ou/e se obter sucesso.

Um dado muito interessante que surgiu com a tese e outras correlatas, foi que as mulheres, em sua vasta maioria, atribuíam seu sucesso a fatores temporários e externos (como sorte) e, ao mesmo tempo, os homens conferiam seus êxitos a atributos internos e pessoais (como habilidade e competência). E quando não obtinham sucesso, as mulheres se referiam à falta de habilidade ou aptidão para a função e, os homens, como imprevistos ou contingências do trabalho (Universidade Estadual da Geórgia – EUA).

Num primeiro momento, ficamos indignados e nos perguntando se é verdade para a maioria. E, quando visualizamos que o Brasil é o 10º país com mais empresas que têm mulheres líderes (15ª edição da International Business Report (IBR) – Women in Business 2019), e que o número proporcional é de 25% dos cargos de liderança dentro dessas empresas, torna-se mais compreensível que este tipo de pensamento seja verídico.

É sabido que uma divisão desigual de trabalho e funções de chefia compromete a autoconfiança do trabalhador, sobretudo, na escolha de responsabilidades e promoções. A “Síndrome do Impostora” afeta exatamente neste ponto. Inicia-se com a falta de confiança ou autoestima, e se conclui com a autossabotagem ou com a postergação nos resultados, dentre outros. A pessoa não se sente merecedora ou capaz de sucesso.

E, mormente pelas razões inerentes às desigualdades de posicionamento nos ambientes de trabalho, por quais motivos mais, as mulheres representam quase 70% das pessoas que sofrem dessa síndrome?

Segundo a Universidade Dominicana da Califórnia (EUA), uma série de condicionantes, inclusive sociais, é interiorizada pela mulher durante sua trajetória de vida, definindo a sua capacidade, ou não, para determinada atribuição. A dúvida permanece em se esses receios são próprios ou socialmente cunhados.

O Human Development Report, mostra que, em 2015, a participação das mulheres, no campo do trabalho formal, era de apenas 47%, enquanto a de homens constava como 72%, sem esquecermos que eles ocupam os cargos com maior valor agregado.

Mas, será que as mulheres estudam menos que os homens?    

Os dados da PNAD Contínua (2016) demonstram exatamente o oposto: “A maior diferença percentual por sexo encontra-se no nível “superior completo”, especialmente entre as pessoas da faixa etária mais jovem, de 25 a 44 anos de idade, em que o percentual de homens que completou a graduação, em universidades, foi de 15,6%, enquanto o de mulheres atingiu 21,5%, indicador 37,9% superior ao dos homens”.

Portanto, há uma qualificação desejada. Logo, a problemática deve ser psicológica, concomitantemente, com a uma estrutura sociocultural nocente.

De forma consoante, Carol Herrera, doutora em Ciências Humanas e especialista em Gênero e Comunicação, esclarece que “há estudos que explicam que as meninas, a partir dos 5 e 6 anos, já têm a sensação de pertencer a um grupo inferior. Para elas as mulheres podem fazer coisas boas, mas são os homens que se destacam”.

Notadamente, na fase adulta, autora Mara Furtado Vicente (2013) corrobora “as mulheres tendem a concentrar-se em profissões que coincidem com o estereótipo tradicional de feminilidade, enquanto os homens podem desempenhar qualquer profissão, obtendo até maior sucesso em termos salariais e de progressão na carreira, mesmo em ocupações tipicamente femininas”.

Estereótipos de gênero cumprem a função de afastar meninas de 16-18 anos de escolherem áreas como exatas ou tecnologia da informação, por frases como “isso não é coisa de mulher”. O mesmo, em larga escala, no mercado de trabalho, com afirmações validadas pela sociedade como absolutas, como por exemplo: “mulheres são sensíveis demais”, “não sabem ser chefes”, “até que está bom para uma mulher”, “não sabem lidar com problemas”, “não possuem punho firme”, “não são criativas” ou “não geram oportunidades, porque não querem”.

E, por fim, a significativa e impactante falta de autoconfiança por reconhecimento. Quantas vezes, independentemente da área (estereotipada ou não), vimos, ao crescer, nos meios de comunicação, mulheres que transformaram a sociedade?

E, sim, existem milhares delas! Porém, poucas são verdadeiramente divulgadas e/ou reconhecidas. Precisamos de mais inspiração, em nível global, do que podemos ser; para não termos a potencial sensação de sermos “fraudes”.

A verdade é que entramos para o mercado de trabalho e, posteriormente, com as experiências da vida, vamos acumulando tarefas (em sua maioria, sem a devida repartição) e, destarte, começamos a sofrer com barreiras que impedem o nosso sucesso, mesmo quando nos qualificamos.

A síndrome, em questão, é uma das barreiras intrapessoais. E a transposição deve partir de nós mesmas. Portanto, mesmo que nos sintamos uma “fraude” todos os dias, que isso não nos impeça de sermos altamente bem-sucedidas!

Não somos impostoras!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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