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Quadrinhos 5 MIN DE LEITURA

A 9º Arte no Japão

Mangás, a representação em imagens de uma nação.

Jorge Massarollo

Publicado

em

Foto: Moujib Aghrout / Unsplash

No ano de 2016 um “discreto” Museu francês localizado no coração de Paris, realizou uma exposição para celebrar a “nona arte”, que incluiu na curadoria, obras de mangás de Naoki Urusawa exímio e premiado Mangaká, nome pelo qual são chamados os desenhistas e criadores de mangás no Japão. Não é de hoje que tais obras são apreciadas culturalmente; já em 1964, o crítico francês Claude Beylie foi o  primeiro a introduzir o conceito de arte no universo das histórias em quadrinhos. Exagerado? Não é o que pensam os fãs, e o Museu do Louvre.

Esse processo de reconhecimento ganhou força desde a afirmação do crítico francês e embora esse mercado tenha passado por uma crise nos últimos anos, as histórias em quadrinhos há muito estão em destaque. No Japão em especial, são parte integrante da sociedade. Lá, todos leem os famosos Mangás. Para compreender a extensão e influência dos mangás no Japão e mundo afora, precisamos retomar um pouco do contexto histórico e social ao qual emergiu essa arte.

CONTEXTO HISTÓRICO

Após os consequentes impactos econômicos, sociais e morais, reflexos da participação dos japoneses na Segunda Guerra mundial, ocorreu a necessidade da nação de reerguer o seu povo em prol de uma sociedade mais humanista, em um apelo ao bem comum . Nesse contexto, surgem as primeiras publicações de mangás em busca do resgate de valores e esperanças. Em princípio as narrativas eram voltadas ao público infantil e enfatizavam temas como sonhos, amizade, cooperação e liberdade, no formato de alegres aventuras.

Esse tom “Disney” não é uma coincidência. O grande Osamu Tezuka, conhecido como o “Deus” dos mangás, por sua contribuição revolucionária no gênero, destaca ter inspirado seu estilo de desenho e narrativa nas animações de Walt Disney. Sua técnica apresentava novas características, como os marcantes olhos grandes e arredondados, o uso de onomatopeias e narrativas sequenciais cinematográficas, que contribuíram para retomada no ânimo e espírito da nação japonesa.

“Por que os filmes americanos são tão diferentes dos japoneses? Como eu posso desenhar quadrinhos que façam as pessoas rir, chorar e se emocionar como aquele filme? ’’.
Tezuka O.

Somente mais tarde, no final da década de 1950, surgem narrativas de teor adulto, com temáticas políticas e críticas sociais. Essa nova leva de artistas passaram a produzir mangás mais desafiadores e dramáticos que refletiam as desilusões do período pós-guerra e o conflito étnico nacionalista.

Atualmente os mangás possuem um mercado consolidado na terra do sol nascente. Lá as publicações são semanais, divididas por capítulos e publicadas por revistas específicas, que trazem ao leitor diversas histórias. Somente após certo sucesso e interesse, são compilados em volumes encadernados, tais como estamos acostumados no Brasil. O público alvo é extremamente variado, são produzidos mangás em diversas categorias, desde o infantil ao adulto, temas que se estendem a ficção, aventura, dramas, esportes, ação, colegial, LGBTs, eróticos, terror. Sempre com traços característicos japoneses que enfatizam o relacionamento afetivo do consumidor em uma identificação direta com o produto.

DIFERENÇAS E CARACTERÍSTICAS

A forma e a estética dos quadrinhos japoneses, envolvem uma expressão única, que dá margens a uma dinâmica fantasiosa e exploratória. Esse espírito, tão enraizado, é representado pelo significado da própria palavra, união de dois ideogramas japoneses.

“Man” 漫 tem um significado primário de “involuntário” e secundariamente “moralmente corrupto”. Já o ideograma “Ga” 画 significa imagens.

Os mangás atuam no campo visual de representações, podem ser compreendidos em sua essência como “imagens involuntárias”, rascunhos livres e inconscientes, que expressam situações excêntricas da sociedade. A característica iconográfica desse estilo, difere do modelo americano: nesses, o layout enfatiza a importância dos quadros individuais, prendendo a atenção do leitor aos detalhes e ao diálogo envolvido. Os quadrinhos japoneses, ao contrário, têm característica fluida, devido a ausência de diálogos extensos e elaborações textuais. A dinâmica de leitura e diagramação priorizam menos quadros por páginas, o layout incentiva o leitor a mudar as páginas rapidamente, entrando no ritmo da narrativa. O leitor “devora” a história, repleta de elementos em movimento e expressões faciais.

Há maior variedade de códigos visuais que destacam o estado emocional dos personagens, deixando o elemento textual em segundo plano. Ler mangás é dialogar com imagens. Um exemplo é o uso de onomatopeias para transmitir sons, emoções, e situações, sem a necessidade de explicações sobre, onde a imagem fala por si.

Apesar de pouco ênfase no dialogo, as histórias mantém a riqueza em seu elemento narrativo pela continuidade cronológica da obra. Os enredos possuem início, meio e fim, bem definidos, com elementos narrativos típicos de produções cinematográficas, que contém a apresentação, desenvolvimento e conclusão da obra. Algumas publicações são tão extensas que levam anos para serem terminadas, como no caso de One Piece e Naruto, que atravessam gerações. O leitor nesse caso pode então acompanhar a evolução dos personagens ao longo dos anos, o público cresce junto a obra, que se torna presente no cotidiano.

ARTE E CULTURA

Em resumo três os pilares de um Mangás: imagens sequenciais, caixas de fala e onomatopeias. Suas características principais: ênfase em expressões, diálogos menos extensos e representações socioculturais. Os Mangás carregam em si os paradigmas e símbolos da nação japonesa, que permite a maior identificação do leitor com a obra. Esses quadrinhos embora sejam objeto de lazer, tem importante papel social, através do qual são transmitidas informações valiosas sobre história, cultura, mitologia, crenças e ensinamentos do Japão.

Essa arte é embaixadora dos costumes japoneses, por suas enigmáticas características e enredos bem elaborados,que conquistaram reconhecimento e o coração de fãs no mundo, consumidoras fiéis, que tem como meio de contato direto com o oriente essa forma de expressão artística chamada Mangá.

REFERÊNCIAS

GRAVETT, PAUL. Mangá: Sixty Years of Japanese Comics. Collins Design.2010.

LEDO LFP. MANGÁ: As histórias em quadrinhos que servem como fonte de informação acerca da mitologia japonesa. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2018.

WINTERSTEIN CP. Mangás e Animes: sociabilidade entre cosplayers e otakus. UFSCAR.2010

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Idealizador e editor chefe do Blog Psique Anime. Caminhou pelas diversas áreas do conhecimento: esporte, saúde, educação, psicologia e veio parar aqui, em entretenimento. Jovem aficionado pelo universo dos Animes, Mangás e cultura oriental. Trago toda minha bagagem como nerd e estudante. Minha vida é algo que não consigo descrever melhor do que um Mosaico de inspirações.

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Inspector Akane Tsunemori: utopia duvidosa

O anime de ficção científica Psycho-Pass foi adaptado para o mangá e recebeu o nome de Inspector Akane Tsunemori. Confira os motivos pelos quais vale a pena ver e ler.

Jéssica Patrine

Publicado

em

Psycho-Pass Wiki

Este artigo começa mostrando algo um pouco diferente. Normalmente as resenhas surgem de adaptações do impresso para o audiovisual, principalmente no caso de adaptações cinematográficas. Inspector Akane Tsunemori contraria essa lógica: primeiro surgiu a primeira temporada do anime Psycho-Pass, lançada em outubro de 2012 no Japão, para depois ser adaptado para o mangá, com menos de um mês de diferença, em novembro de 2012. O material impresso recebeu o nome de Inspector Akane Tsunemori, que é o mesmo da protagonista. No Brasil, a Panini Mangá só lançou os seis volumes em 2018.

O mangá corresponde à primeira temporada do anime. Apresenta o abalo do Sistema Sybil, que governa e controla um Japão pacífico e utópico. Sybil monitora todos e decide profissões, namoros e a vida dos que têm o Psycho-Pass baixo e claro. Esse parâmetro é uma análise do estado mental e controle das emoções negativas, como raiva e estresse. Quem tem o Psycho-Pass alto e turvo, é isolado socialmente e considerado como criminoso latente, ou seja, que tem a possibilidade de cometer algum crime. Sim, as pessoas são monitoradas constantemente e presas antes de fazer qualquer coisa.

A partir disso surge uma questão: e se existisse gente que perturbasse a ordem social e que Sybil não conseguisse fazer a leitura adequada do Psycho-Pass? Ou seja, para o sistema, essas pessoas sequer existem. E com a falta de reconhecimento do próprio sistema, acontecem muitas possibilidades de gerar caos. Isso fica para a Agência de Segurança Pública, que funciona como o sistema investigativo e policial, cuidar e desvendar. E é  aí que a protagonista Akane Tsunemori entra. No começo, assim como qualquer pessoa, ela é ingênua e otimista. Conforme o desenrolar do enredo, ela se adapta ao trabalho e mostra o porquê dela ser apta para o cargo de inspetora.

Leves diferenças

O mangá é extremamente fiel ao anime. E com um bônus: os personagens secundários (e bem carismáticos) como Kagari, Sasayama, Masaoka e Ginoza têm seus arcos levemente mais aprofundados e explicados. As referências literárias, filosóficas e históricas permanecem, já que é uma das características marcantes do anime. Diria que há mais referências históricas do que o resto, o que não tira de maneira alguma a característica da obra.

Akane Tsunemori é mostrada sob uma perspectiva mais íntima. Assim como no anime, é possível acompanhar a evolução da personagem como inspetora da Agência. Mas no mangá, os conflitos emocionais de Akane são mais enfatizados. Como é possível endurecer a maneira de agir sem se tornar totalmente fria? O dilema persiste e Akane consegue lidar com isso muito bem, mesmo com os acontecimentos mórbidos. A parceria estranha e levemente paradoxal com Shinya Kogami continua como um dos pontos altos do enredo. Afinal, Kogami é, em partes, o que Akane busca como inspetora: determinado, inteligente e com habilidades acima da média. Mas ela não pode esquecer que ele se tornou um criminoso latente. O limiar entre frieza e raiva extrema é mostrado de forma tênue.

Então, se você gosta de ficção científica, protagonistas femininas fortes e reais, investigação criminal, conflitos políticos e sociais, ação, literatura e filosofia, leia Inspector Akane Tsunemori e veja Psycho-Pass. É uma das raras obras com uma junção realmente boa de todos esses itens.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Mangás: gêneros e classificações

O termo que designa histórias em quadrinhos, está inserido no cotidiano japonês de tal forma que, 40% de todo papel impresso no Japão é destinado a esse estilo de leitura.

Jorge Massarollo

Publicado

em

Foto: Martijn Baudoin / Unsplash

Mangás, fenômeno cultural que faz parte de um imenso mercado de entretenimento que movimenta milhares de fãs. O termo que designa histórias em quadrinhos, está inserido no cotidiano japonês de tal forma que, 40% de todo papel impresso no Japão é destinado a esse estilo de leitura.

Adultos, jovens, crianças, são todos tomados pelo espírito das breves páginas semanais/mensais, feitas com papel barato e histórias excêntricas. Embora esse mercado pareça estar voltado ao público infantojuvenil, onde mais de ⅓ deste é destinado ao consumidor adulto, resultando nas mais variadas temáticas.

Essa diversidade permite a formação de grupos que compartilham do mesmo gosto e apreciam aquele, ou outro mangá, sendo possível a classificação de diferentes categorias de indivíduos, de acordo com o tipo de produto que consome. O que para as editoras facilita bastante quando falamos de público alvo.

Obviamente assim como as grande produções hollywoodianas e as HQ americanas, os mangás são classificados por gêneros, tais como fantasia, ficção, aventura, ação, comédia. Entretanto existe uma classificação referente ao público alvo, ou seja, a quem está destinado aquele produto e enredo específico , que se relaciona diretamente com características do consumidor.

Essa divisão é clara no mercado japonês, e recebem nomes e classificações específicas como veremos a seguir:

SHONEN
Termo japonês que designa a palavra menino.
Público Alvo: Meninos de 10 a 18 anos
Descrição: É a categoria mais famosa mundialmente, são histórias de ação e aventura, com temas fantasiosos, de ficção científica, magia, que podem envolver alienígenas, demônios, deuses, robôs, guerreiros, samurais, esportes, com uma boa dose de competição, lutas, heróis e humor. São aqueles tipos de mangás que quando adaptados para versão animada, lhe faz vibrar com batalhas ferozes e seus personagens Badass. Porradaria pura, embora tenha seus momentos românticos e filosóficos. Onde a amizade, busca pelos sonhos e persistência contra os desafios são marca registrada dos personagens principais do gênero.

SHOUJO
Termo japonês que designa a palavra menina.
Público Alvo: Meninas de 10 a 18 anos
Descrição: É uma categoria destinada a um público feminino, interessante notar que até a década de 1970 esses mangás eram feito por homens, somente a partir dos anos 70, que as mangakás femininas começam a ganhar espaço. Inclusive atualmente a maioria dos mangás desse gênero é escrito, desenhado e editado por mulheres. Hoje as mangakás são responsáveis pela criação de histórias em diversos gêneros de mangás, como exemplo da famosa Hiromu Arakawa com a obra Full Metal, considerado por muitos o melhor mangá/anime da história. Voltando ao Shoujo, estes são mangás de traços mais delicados, que abordam histórias de amor, onde existe normalmente um personagem masculino, foco da paixão das personagens principais, o romance pode ocorrer em cenários fantasiosos, mágicos ou colegiais. Histórias que embora possam ter alguma ação, o enfoque está nos sentimentos adolescentes e dramas familiares. A psicologia infantojuvenil e os desafios dessa fase da vida são o tema principal desse gênero.

SEINEN
Termo cujo significado é “Homem Adulto’’.
Público Alvo: Adulto
Descrição: Seria algo como uma versão adulta do gênero Shonen, com temas mais realistas e sombrios, com tramas complexas, que se aproximam de histórias em HQ americanas. Sangue, palavras impróprias, cenas explícitas, humor negro são algumas características desses mangás. Embora a fantasia e ficção se encontrem presentes, existe uma profundidade maior nos temas, com uma seriedade e forte críticas sociais.

JOSEI
Termo cujo significado é “Mulher Adulta’’
Público Alvo: Adulto
Descrição: A mesma ideia de SEINEN vale aqui, entretanto para o público feminino. São histórias que envolvem romances, paixões, intrigas, com caráter mais realista e adulto. O conteúdo sexual é fortemente explorado nesse gênero, não necessariamente explícito. Aqui o romance adolescente pueril é colocada de lado, e dá espaço a romances de forma mais direta e séria. Além de enredos fantasiosos, o estilo procura abordar o cotidiano das mulheres japonesas.

JIDAIGEKI
Público Alvo: Adolescente/Adulto
Descrição: Esse gênero explora dramas e feitos históricos, recriando batalhas e heroísmo. Os japoneses são um povo bastante nacionalista, contar sua história através das páginas de mangás parece ser um jeito interessante de atrair a atenção e curiosidade os jovens, bem como adultos que gostam do período feudal, onde os samurais caminhavam livremente, travando batalhas lendárias.

GEKIGÁ
Termo que significa “figuras dramáticas’’
Público Alvo: Adulto
Descrição: O termo foi criado por Yoshihiro Tatsumi, foi um movimento que surgiu na década de 50 em contraste aos gêneros de mangás voltados ao público infanto-juvenil. Seu objetivo era atingir público adulto com histórias que contém um caráter mais realista e dramático, explorando principalmente o cotidiano do povo Japonês. Se encaixa no naquilo que compreendemos como Drama no Ocidente. Seriam um tipo de quadrinhos alternativos no Japão.

KODOMO
A palavra significa criança em japonês.
Público Alvo: Infantil
Descrição: Com traços mais simples, esse gênero é focado em crianças, com temas voltados a educação, momentos interativos e instrutivos, onde a criança aprende e se diverte ao mesmo tempo. As tramas são simples, com menos ação e mais “comédia’’ com abordagem infantil. É difícil não fazer uma comparação ao nosso equivalente no Brasil, a turma da mônica.

HENTAI
É uma gíria japonesa que significa Pervertido.
Público Alvo: Adultos Jovens
Descrição: Provavelmente o gênero mais polêmico, são mangás destinados a conteúdos eróticos. Existem diversos tipos e sub gêneros, os assuntos vão desde sexo entre indivíduos à coisas bizarras como tentáculos. A história não é o forte desses mangás em si, eles dialogam com uma linguagem jovem, e o apelo sexual é forte e explícito. Lolicon,Shotacon, Yuri, Yaoi são nomes de categorias que pertencem a esse estilo. Existe até o Ecchi, que aborda conteúdo não pornagráfico porém com forte apelo ao erotismo. Mangás portanto com foco no tema sexual.

Como simplificado acima, existe uma gama de gêneros e estilos específicos para todos os públicos, que tornam a experiência de leitura única, particular e ao mesmo tempo compartilhada. No Brasil embora o público alvo não seja caracterizado com essa divisão, os consumidores possuem preferências e identificação com um ou mais desses gêneros, no qual eles mesmo se reconhecem. Em grandes eventos sobre o tema podemos perceber de forma nítida, pelos diferentes grupos que se formam e compartilham suas experiências essa divisão.  E embora aparente fronteiras, no fim somos todos amantes dessa arte.

Referências Bibliográficas

Winterstein, Claudia Pedro.’’Mangás e animes : sociabilidade entre cosplayers e otakus.’’. São Carlos : UFSCar, 2010.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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