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Comportamento 3 MIN DE LEITURA

Produtos e produtores das violências

Violência é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Paula Akkari

Publicado

em

Foto: Randy Colas / Unsplash

Há uma combinação da baixa disponibilidade de recursos sublimatórios de pulsões destrutivas com as ações inescrupulosas dos poderosos para manterem suas posições. A situação é agravada com fatores sociais de risco como desigualdade, baixa mobilidade, gentrificação, equivocada condução da política de drogas e baixo acesso à saúde e educação. O resultado é uma tragédia anunciada: a persistência da violência, forma na qual as opressões, dominações e exclusões se realizam.

“Violência” é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Marilena Chauí apresenta a concepção de que são violentas todas as formas de ação, pensamento e sentimento que desconsideram o próximo como pessoa e o objetificam para manipulação. Por mais, aponta suas bases estruturais de hierarquia, verticalização e naturalização da relação mando-obediência. Também expõe dispositivos que as solapam: exemplos deles são os discursos do direito, com a tradição de localizar a violência em crimes contra a propriedade e vida e exigir provas, às vezes invisíveis, de todas as denúncias; do sociológico, quando considera-as um momento de anomia social, e dos meios de comunicação que descrevem-na como “onda” ou “crise”, separam “o outro violento” e o “eu não-violento” e distinguem “essencial” de “acidental”, produzindo a ideia de que a violência é alheia a si mesmo e superficial.

As repercurssões objetivas disso ocorrem nos âmbitos macropolíticos, como os econômicos e jurídicos. Enfim, são parte de um projeto político, ciclicamente, ocasionando mais violência ainda.

Quanto aos impactos subjetivos, agravados pela falta de perspectivas de mudanças nas contingências conjunturais – quando há, inclusive elogios às mais cruéis, como tortura e afins – é necessário destacar o que deveria ser obviedade: a violência alastra as mais perigosas e dolorosas consequências mentais e comportamentais.

Freud explica: após o cessar-fogo europeu em 1918, o pai da psicanálise publicou, em “Além do Princípio de Prazer” suas considerações sobre as neuroses traumáticas, quadros de sofrimento psíquico respondentes à barbárie até então vigente.  Na obra, alegou que “a terrível guerra que há pouco findou deu origem a um grande número de doenças deste tipo”.

As questões em pauta não são datadas. A literatura psicanalítica descreve e atualiza os conceitos de violência traumática. O trauma pode ser evidenciado de forma positiva (inclusive na forma de sonhos) resultando em produção de angústia. Há, contudo, um grupo de fenômenos relacionados a sua transmissão mais difíceis de detectar, que se passam nas entrelinhas, sobre os quais não se fala. Esses são ocasionados pela desautorização, culpabilização e falta de compreensão do luto, que se estagna.

O traumático que se passa no silêncio corrói as compreensões e enfim retorna. Uma ilustração é o clichê “o filho que apanha será o pai que bate”: nela, o passado se apresenta como um futuro acabado. Eis, portanto, a importância do reconhecimento, da partilha do sensível, que permitem a capacidade de olhar para o futuro sem imaginar que ele seja uma mera repetição da dor.

Assim, evidencia-se a necessidade de expandir a compreensão sobre a violência e refutar os  desonestos discursos restritivos que tentam circunscrevê-la à criminalidade e ao espaço público. Também é essencial autorizar os sofrimentos resultantes, tão dolorosamente convocados a um enterro sem luto. Por fim, resta atentar-se aos poderosos cujos interesses a mobilizam. E ter como prioridade vigiá-los (ou derrubá-los) antes que outros atos violentos sejam autorizados ou executados por eles e seus representantes.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Paula Akkari é estudante de Psicologia na PUC-SP e foi intercambista na Universidade do Porto. Além de possuir experiência na área da Educação, é Diretora de RH na PsicoPUCJr e escritora.

Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

em

Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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