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Comportamento

A era do “capitalismo de vigilância”: a matéria-prima somos nós

Na nova era capitalista, a sociedade está separada em dois grupos: os que vigiam e os que são vigiados.

Sergio Kulpas

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Foto: Matthew Henry / Unsplash

Em seu livro “The Age of Surveillance Capitalism – The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power”, a autora Shoshana Zuboff define o termo logo na introdução: “Ca-pi-ta-lis-mo de Vi-gi-lân-cia”, substantivo. 1) Uma nova ordem econômica que considera a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, previsão e vendas; 2) Uma lógica econômica parasitária onde a produção de bens e serviços está subordinada a uma nova arquitetura mundial de modificação de comportamentos; 3) Uma mutação selvagem do capitalismo marcada por imensas concentrações de riqueza, conhecimentos e poder, em níveis inéditos na história humana; 4) A estrutura fundamental de uma economia baseada em vigilância; 5) Uma ameaça tão significativa para a natureza humana no século 21 quanto o capitalismo industrial foi para o mundo natural nos séculos 19 e 20; 6) A origem de um novo poder instrumental que exerce domínio sobre a sociedade e apresenta tremendos desafios para a democracia do mercado; 7) Um movimento que que busca impor uma nova ordem coletiva baseada na certeza absoluta; e 8) Uma expropriação de direitos humanos essenciais que pode ser compreendida como um golpe de cima para baixo: a derrubada da soberania das pessoas.

Zuboff diz que o capitalismo de vigilância funciona através da oferta de serviços “gratuitos” que bilhões de pessoas usam de modo alegre e despreocupado, e que permitem que os donos desses serviços monitorem o comportamento dos usuários com um altíssimo (e alarmante) nível de detalhes. E na maior parte do tempo, essa extração de dados sensíveis ocorre sem o conhecimento ou permissão das pessoas.

A autora diz que o capitalismo de vigilância explora as experiências humanas como matéria-prima gratuita, que é minerada e transformada em dados comportamentais. Uma parcela desses dados é usada para aprimorar os serviços, mas o restante alimenta processos produtivos que usam “machine intelligence” para prever o que as pessoas vão fazer agora e no futuro. Esses produtos de dados pessoais são então comercializados em um “mercado de futuros” de informações comportamentais. Os capitalistas de vigilância estão se tornando imensamente ricos com esse comércio de dados, já que um grande número de empresas paga muito bem por essas previsões de comportamento.

Nesse cenário, empresas como Google, Facebook, Amazon e outras aparecem como predadores ferozes que fazem os capitalistas dos séculos 19 e 20 parecerem personagens românticos. Esses novos capitalistas lucram arrogantemente com apropriação de dados privados das pessoas, como se fosse um recurso natural gratuito, de coleta livre. E usam métodos patenteados e secretos para processar esses dados, mesmo quando os usuários negaram explicitamente a permissão para isso. Para completar, os produtos lucrativos são obtidos por meio de tecnologias deliberadamente ocultas, que se aproveitam da ignorância dos usuários.

Para tornar as coisas ainda mais complicadas, esse modelo de exploração emergiu a partir de um território praticamente sem leis. O Google decidiu por conta própria que ia digitalizar e arquivar todos os livros já publicados, sem se preocupar com questões de direitos autorais. Também decidiu que ia fotografar todas as ruas e casas do mundo, sem pedir permissão a ninguém. O Facebook criou os “Beacons”, relatórios de atividades online das pessoas, que eram publicados na timeline de outras pessoas, sem o conhecimento do usuário. Esses e muitos outros exemplos de violência digital na vida privada das pessoas, usando o lema “é mais fácil pedir desculpas depois do que permissão primeiro”. As empresas avançam agressivamente na coleta de dados pessoais, e quando são flagradas fazendo isso, emitem “comunicados oficiais” se retratando e prometendo melhorar. Mas não melhoram, e ainda criam novos meios para continuar com a mesma atividade antiética e ilícita.

É essa combinação de vigilância estatal com o reforço das empresas capitalistas que cria a atual divisão na sociedade humana: os “observadores” e os “observados”, vigilantes e vigiados, exploradores e explorados (o capitalismo em sua essência clássica). Essa dinâmica atual tem consequências muito funestas para a democracia, porque essas assimetrias de conhecimento se transformam em assimetrias de poder. As sociedades democráticas ainda mantêm alguns mecanismos de controle e supervisão sobre as atividades dos governantes, mas as mega-empresas capitalistas não estão sujeitas a praticamente nenhum controle.

Essa situação não oferece uma solução simples, porque mexe justamente com a lógica de acumulação de riquezas do capitalismo de vigilância. Não existe a menor possibilidade de “auto-regulamentação” por parte dessas empresas. E Zuboff escreve em seu livro que exigir proteção à privacidade por parte dos capitalistas de vigilância seria o mesmo que exigir que o velho Henry Ford no começo do século 20 produzisse cada automóvel “Model T” à mão, um por um. É como pedir que uma girafa encolha seu pescoço, ou que uma vaca pare de pastar. Essas exigências são ameaças existenciais aos mecanismos básicos que sustentam esse modelo de exploração econômica.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Comportamento

Ensaio sobre a tolerância

Com o especial do Porta dos Fundos, surge uma ótima oportunidade para levantar questionamentos acerca da tolerância religiosa

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Foto: Netflix / Divulgação

Natal. Uma época para espalhar empatia e felicidade. Uma época para valorizar as coisas simples da vida. Uma época para, principalmente, espalhar o amor. Será? Esses princípios, em muitos níveis, são difundidos pelos cristãos ao longo do planeta. Contudo, será mesmo que algumas pessoas desse grupo está praticando o que eles pregam?

Aproveitando o lançamento do especial de natal do Porta dos Fundos, decidi levantar uma discussão sobre algumas incoerências religiosas.

Generalizando?

Antes de levantar alguns questionamentos, é importante deixar claro que “amar ao próximo” é uma das bases para a maioria das religiões. Temos inúmeros exemplos de cristãos que agem exatamente da forma que eles pregam. São caridosos, compreensivos e amáveis. Contudo, há uma parcela que age de forma irracional, preconceituosa e intolerante. O ponto é que todos esses comportamentos deveriam ser rechaçados pelos adeptos da fé. Por que isso não é feito? Esse é o ponto central a ser levantado nesse artigo.

Necessidade de Discutir “Tabus”

“Politica, futebol e religião não se discutem”. Eu já ouvi essa máxima infinitas vezes. Esse senso comum parte do pressuposto que esses temas são tabus e não devem ser discutidos, a fim de evitar desgastes e brigas. Bom, nos últimos anos, o que mais se tem discutido (não vou entrar no mérito da qualidade dessa discussão) é politica e, pelo que eu acompanho do mundo futebolístico, discussões acaloradas surgem diariamente sobre o tema. Já quando se trata de religião, vejo que as pessoas pisam em ovos – eu mesmo estou pisando em ovos no momento em que escrevo isso -, mas, por quê? Por que a religião ainda é um tabu? Acredito que seja porque a nossa sociedade moderna foi fundada baseada em crenças religiosas e, por esse motivo, discutir esse tema é delicado, pois, em teoria, estamos mexendo nas nossas bases. As pessoas tendem a serem mais passionais em relação a isso

Contudo, essas crenças e seus efeitos sociológicos precisam ser discutidos, a fim de aprimorar o nosso convívio em sociedade.

O Amor de Deus

“Deus é amor”. Já escutei essa frase inúmeras vezes. Contudo, ela sempre me incomodou. Não porque eu ache ruim o amor e os seus derivados, mas sim porque eu acho uma frase extremamente incoerente, visto o que realmente ocorre na nossa vida cotidiana em função de Deus. Diariamente, pessoas são agredidas em nome da fé. Os exemplos são inúmeros: Homossexuais são mortos no Iraque apenas por serem homossexuais, mulheres são impedidas de exercerem funções básicas, religiões de matriz africana sofrem diariamente, entre outros exemplos.

Visto todos esses exemplos, por que as pessoas que deveriam espalhar o amor de Deus gastam o seu tempo disseminando o ódio para com alguns grupos? Não seria isso uma incoerência?

Nas Redes Sociais

As redes sociais funcionam de forma democrática. Todos podem comentar o que achar melhor. Isso deu voz para aqueles que não tinham voz, contudo, isso liberou uma horda de preconceito e intolerância. Quer um exemplo?

Poste um questionamento sobre a forma com que alguns cristãos se portam perante quem pensa diferente dele. Garanto para você que a chuva de ameaças irá surgir. Abaixo alguns exemplos (transcritos quase que literalmente):

“Isso é podre nojento completamente revoltante! Isso é putaria das grossas! Depois querem respeito! É por causa desse tipo de atitude que muitos gays que respeitam e acreditam em Deus são mortos, por causa de uns nojentos desses outros que não tem culpa de nada pagam! Isso não diminue a homofobia, pelo contrário só aumenta!”;
– ”Aí uma praga dessa como vc, fica doente a beira da morte e oq acontece? Vão seguir igrejas evangélicas. Pq acham que lá estará a cura, q na verdade está na fé depositada em Cristo. Mas sua hora de arrependimento tbm vai chegar. Aguarde…”;
”Caio Bogos tu é simplesmente um idiota , arrogante que pensa que sabe das coisas, precisa realmente de tratamento de choque pq fica ” copiando ” artigos já estudados à tempos, se achando o expert…muita pena , alguém que precisa de muita ajuda mental , espiritual e simancal;
”Caio Bogos ignorante sobre Deus ę a vida totalmente, pessoas como.vc precisam de tratamento de choque , tratamento psiquiátrico pois não são normais …por isso passam sufoco na vida e só se ferram pois precisam aprender a ser gente …tão aqui nessa terra inutilmente , não tem serventia pra nadaaaa”.

Onde está o amor dessas pessoas? Portanto, concluo que se “Deus é amor”, ele esqueceu de falar isso para alguns de seus fieis.

Somente Deus pode julgar, mas alguns cristãos podem ajudar

Sabemos que grande parte dos preconceitos contra a comunidade LGBTQIA+ tem um fundo religioso. Sempre que a comunidade conquista algo, isso gera uma chuva de questionamentos sobre a própria existência daquela comunidade e, em sua maioria, a justificativa para esses questionamentos é de fundo religioso – vide Levítico 18:22 e os seus derivados.

Mas onde fica aquela famosa frase: “Somente Deus pode julgar”? Bom, minha veia Orwelliana, tende a adaptar essa frase para “Somente Deus pode julgar, mas alguns cristãos podem ajudar”. Observem que esse julgamento atinge uma parcela enorme dessa comunidade. Só a titulo de informação, o Brasil é o pais que mais mata transexuais no mundo e, não coincidentemente, é um pais com um fundo extremamente religioso.

Reinterpretações que nos fazem refletir

O que o Porta dos Fundos fez não é novo. Saramago já fez isso por duas ocasiões. A primeira delas foi em 1991 quando publicou “O Evangelho segundo Jesus cristo” e a segunda foi em 2009 com a publicação de “Caim”. Em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, Saramago apresenta a sua visão sobre o novo testamento. Há passagens super interessantes nesse livro, como, por exemplo, o interesse amoroso de Jesus, a sua imaturidade e o papel do seu sacrifício.

Já em “Caim”, Saramago nos brinda com a sua visão sobre o velho testamento na visão do primeiro filho de Adão e Eva. Recomendo fortemente ler com atenção as conversas entre Caim e Deus. Esses livros causaram bastante polemica quando foram publicados. As pessoas ficaram indignadas por diversos motivos, mas, acredito que o principal deles tenha sido a “humanização” de Deus e Jesus. Afinal, sempre as pessoas os colocam como entidades etéreas. Pretendo falar sobre esses livros nos meus próximos artigos, contudo, o ponto que eu quero levantar é o desconforto que essas discussões causam e, se há desconforto, é porque tem que ser discutido.

Para refletir

A fé e a religião fazem parte da estrutura da nossa sociedade moderna. Isso é fato. Contudo, esse fato não deve ser um impeditivo para debater sobre esses temas. Cada pessoa tem o direito de ter a sua fé, contudo, esse direito não deve acabar com a liberdade das outras pessoas de se expressarem. Lembre-se do paradoxo da tolerância de Karl Popper:

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto com eles”.

A conclusão que eu chego é que, apesar da religião pregar alguns princípios, esses princípios não são seguidos por uma parcela dos seus seguidores. Essa parcela precisa entender que não vive sozinha em sociedade. Elas precisam aprender a serem tolerantes. Espero sinceramente que essas pessoas evoluam e aprendam. Enquanto isso, seguimos na nossa cruzada de conscientização.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento

A conexão humana frente à era tecnológica

Entenda porque tanto se fala da importância das soft skills e o primeiro passo para desenvolvê-las

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Foto: Rémi Walle / Unsplash

Após séculos e mais séculos de transformações e revoluções industriais apenas um fator comum de extrema importância permanece o mesmo: o capital humano. Atualmente, apesar do foco dado ao futuro tecnológico com o surgimento da Inteligência Artificial, Machine Learning, Realidade Virtual, IoT (Internet das Coisas) e automação dos processos, as pessoas ainda são as responsáveis por gerenciar essas novas ferramentas e, não podemos esquecer, quem consome o mercado. Principalmente nessa era digital em um mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), além de investir na capacidade dos colaboradores de acompanhar essas mudanças e se reinventar constantemente, as empresas devem prezar pela capacidade de conexão: conexão do indivíduo com ele mesmo, conexão com as pessoas e conexão com o negócio.

Se no surgimento das indústrias contratavam braços, com as revoluções industriais passaram a contratar mentes, agora contratam as pessoas pelo coração. Nunca se falou tanto no termo em inglês muito utilizado pelos RHs de empresas soft skills. Ao contrário do hard skills – competências técnicas – que podem ser aprendidas em uma sala de aula e facilmente avaliadas, o soft skills traduz as habilidades comportamentais como empatia, resiliência, comunicação, resolução de conflitos, tomada de decisão, liderança, entre outras, muito mais difíceis de serem mensuradas e desenvolvidas. Também são conhecidas como people skills (habilidades com pessoas) ou interpersonal skills (habilidades interpessoais), pois estão relacionadas à forma de se relacionar e interagir com as pessoas. São características pessoais que afetam diretamente na produtividade de toda a equipe.

Uma pesquisa da Você S/A revelou que somente 13% das demissões estão associadas às hard skills, enquanto 87% estão relacionadas a questões comportamentais, ou seja, à ausência de soft skills. Outra pesquisa, realizada pela Capgemini em 2017, diz que 60% das organizações estão insatisfeitas com as soft skills de seus colaboradores. O estudo verificou também uma crescente demanda por habilidades específicas entre os 1.250 executivos entrevistados (Capgemini, 2017):

Foco no cliente (65%): qualidade de atendimento e dedicação ao cliente;
Cooperação (64%): capacidade de trabalhar em equipe e assumir tarefas;
Aprendizagem contínua (64%): pensar “fora da caixa”, ou seja, aventurar-se além da zona de conforto para adquirir novos saberes;
Habilidade organizacional (61%): conhecimentos que os líderes devem dominar para lidar com situações complexas na rotina corporativa;
Habilidade de lidar com ambiguidade (56%): ser capaz de conviver com as ambiguidades e transformações inerentes ao meio corporativo é fundamental em um mundo cada vez mais VUCA;
Mindset empreendedor (54%);
Capacidade de promover mudanças (53%).

Está latente a importância do foco em mudança de comportamento. Por isso, é essencial – tanto para empresas quanto para os colaboradores – fazer um mapeamento para descobrir quais são as competências pessoais necessárias em cada cargo e também olhar para o momento e cultura da empresa para depois desenvolvê-las.

Como indivíduo, para identificar as próprias habilidades é preciso trabalhar o autoconhecimento, que pode ser feito de diversas formas como: refletindo sobre suas atitudes, pedindo feedback, por meio de avaliações de perfil comportamental, processos de desenvolvimento pessoal, que ajudam a reconhecer o seu potencial e desenvolvê-lo. Outra maneira é mergulhando em atividades que exijam essas habilidades e praticá-las sempre que surgir oportunidade. Por exemplo, quer praticar sua empatia, escuta ativa e flexibilidade? Procure conversar com pessoas totalmente diferentes de você ou que tenham opiniões contrárias. Faça tudo de forma consciente.

Para ajudar, as soft skills mais requisitadas são: Comunicação e Negociação, Liderança, Controle emocional e Resiliência, Trabalho em equipe, Solução de problemas, Gestão do tempo, Criatividade, Proatividade, Empatia, Pensamento crítico, Confiabilidade e Disposição para ensinar.

E aí? Por onde você pode começar?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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