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Comportamento 4 MIN DE LEITURA

O ponto de Deus: por que ninguém fala de inteligência espiritual?

Ao contrário do quociente intelectual e do quociente emocional, a inteligência espiritual tem sido relegada a segundo plano.

Isabel Franchon

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Foto: Fotosearch

O conceito não é novo, pelo contrário. O livro “QS – Spiritual Quociente”, da física e filósofa norte-americana Danah Zohar em parceria com o psiquiatra Ian Marshal, foi lançado em 2000, portanto há quase 20 anos. Sustentado sobre pesquisas científicas feitas ao longo de uma década nas áreas de neurologia, neuropsicologia e neurolinguística, o livro mostra que o QS é a base para que o QI (Quociente Intelectual) e QE (Quociente Emocional) operem em conjunto, de modo eficiente. Mas o assunto sobre o qual se fala é apenas o QE, ou Inteligência Emocional. Será tabu? Melhor desmistificar.

Espiritual vem do latim spiritualis, que quer dizer, de acordo com Houaiss, “próprio à respiração, relativo ao espírito humano”, portanto, o que dá a vida a um sistema. Ocorre que espiritualidade é confundida com organizações religiosas, sistema de crenças teológicas, opções pessoais. Não se trata de ser agnóstico, ateu, católico, budista ou espírita; trata-se de reconhecer em si a capacidade – ou característica – inerente ao ser humano.

Absolutamente nada contra nenhuma religião ou aceitação de uma realidade metafísica! Apenas um outro enfoque que nos leva a reconhecer essa dimensão interior do ser humano que não vive só para suprir suas necessidades básicas para sobreviver, como os animais. Encontrar um significado, um propósito maior pelo qual viver é natural e nos leva sempre a questionar sobre nossas ações e a buscar uma maneira melhor de executá-las. Mas voltemos às Inteligências. Sim, Inteligências.

No início do século passado, a ideia era a de que o ser humano tinha uma organização neural que permitia pensar de forma lógica e racional – surgiu então o conceito de QI – Quociente de Inteligência, quando testes mediam o nível de inteligência do indivíduo através de qualidades lógicas. Isaac Newton tinha 190; Einstein, 160!

Na prática, no entanto, nem sempre os mais bem-dotados intelectualmente eram os mais competentes para exercerem determinadas funções: gênios tinham, por exemplo, extrema dificuldade para os relacionamentos ou para a vida prática. O conceito de Inteligência Única foi então ampliado para Inteligências Múltiplas (IM) pelo psicólogo e pesquisador americano Howard Gardner, na década de 80, que chegou a oito diferentes habilidades naturais que compunham o conceito. Mais tarde, ampliando para onze.

Foi só em 1995 que o psicólogo Daniel Goleman apresentou o conceito de Quociente Emocional (QE) ou Inteligência Emocional – que dá ao ser humano a capacidade de reconhecer seus sentimentos, lidar com suas emoções e, consequentemente, reconhecer as emoções dos outros criando relações mais saudáveis. E sobre Inteligência Emocional não é preciso falar, porque todo mundo lê, todos os dias, inúmeros artigos sobre o assunto, participa de workshops para aprender a ter IE, discute em grupos. Extremamente importante, sem dúvida!

Voltemos então a falar de QS, a Inteligência que é a base essencial para que todas as outras operem com eficiência – porque vai muito além das capacidades intelectual e emocional ao colocar as ações e experiências num amplo contexto de sentido e valor.

Na década de 90, Vilanu Ramachandran, neurologista, e Michael Persinger, neuropsicólogo, identificaram, através de escaneamentos no cérebro, uma área que se iluminava a cada vez que as discussões giravam em torno de temas espirituais. Nas inúmeras repetições dos testes, identificaram, nas conexões neurais nos lobos temporais, um ponto ligado à necessidade humana na busca do sentido da vida, ao qual chamaram de “o Ponto de Deus”.

Numa sociedade em crise como a nossa, onde o assunto espiritualidade provoca um certo desconforto, vale a pena falar do ponto de vista científico. Segundo Danah Zohar, a Inteligência Espiritual está ligada à nossa necessidade de ter um propósito de vida que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que norteiam nossas ações em sociedade. É uma inteligência que nos impulsiona, que transforma nossa vida deixando-a mais rica e cheia de sentido. E encontrar esse sentido mais amplo, para além da sobrevivência, é uma necessidade que sempre esteve presente na história da humanidade; leva-nos a compreender o “sentido de pertencer”, de fazer parte de algo maior ao ampliar a nossa percepção de que somos todos interligados e interdependentes nesse grande círculo de relações em que vivemos, abarcando também o planeta.

É a nossa Inteligência Espiritual, em maior ou menor grau, que nos faz sair em busca da autoconsciência; desenvolver qualidades baseadas em valores como o amor, a compaixão, a capacidade de perdoar, a tolerância, a paciência, a harmonia, a responsabilidade perante o mundo que nos leva a acreditar nas pessoas; que nos dá capacidade para lidar com as adversidades e a capacidade de ir além dos nossos interesses pessoais ao compartilhar nossas ideias.

Desenvolver a Espiritualidade é apenas usar nossa Inteligência Espiritual para transformar o mundo em um lugar melhor, agindo com base em motivações mais elevadas – tomar atitudes a partir do que temos de melhor, a nossa dimensão interior, a nossa capacidade de reconhecermos nos outros a nossa própria humanidade, aceitando a diversidade e nos movimentando para o bem comum.

O potencial está aí, faz parte de todos nós; o que nos falta é apenas recuperar a consciência de que cada um é responsável por si mesmo. E – devido à nossa conexão espiritual – também por todos.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Coach e Consultora, trabalha com Desenvolvimento Pessoal/Profissional, treinamentos e mudança Cultural em empresas, abordando temas como Compliance & Ética, Liderança & Gestão, Alta Performance e Comunicação Interpessoal, entre outros.

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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