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Comportamento

O ponto de Deus: por que ninguém fala de inteligência espiritual?

Ao contrário do quociente intelectual e do quociente emocional, a inteligência espiritual tem sido relegada a segundo plano.

Isabel Franchon

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em

Foto: Fotosearch

O conceito não é novo, pelo contrário. O livro “QS – Spiritual Quociente”, da física e filósofa norte-americana Danah Zohar em parceria com o psiquiatra Ian Marshal, foi lançado em 2000, portanto há quase 20 anos. Sustentado sobre pesquisas científicas feitas ao longo de uma década nas áreas de neurologia, neuropsicologia e neurolinguística, o livro mostra que o QS é a base para que o QI (Quociente Intelectual) e QE (Quociente Emocional) operem em conjunto, de modo eficiente. Mas o assunto sobre o qual se fala é apenas o QE, ou Inteligência Emocional. Será tabu? Melhor desmistificar.

Espiritual vem do latim spiritualis, que quer dizer, de acordo com Houaiss, “próprio à respiração, relativo ao espírito humano”, portanto, o que dá a vida a um sistema. Ocorre que espiritualidade é confundida com organizações religiosas, sistema de crenças teológicas, opções pessoais. Não se trata de ser agnóstico, ateu, católico, budista ou espírita; trata-se de reconhecer em si a capacidade – ou característica – inerente ao ser humano.

Absolutamente nada contra nenhuma religião ou aceitação de uma realidade metafísica! Apenas um outro enfoque que nos leva a reconhecer essa dimensão interior do ser humano que não vive só para suprir suas necessidades básicas para sobreviver, como os animais. Encontrar um significado, um propósito maior pelo qual viver é natural e nos leva sempre a questionar sobre nossas ações e a buscar uma maneira melhor de executá-las. Mas voltemos às Inteligências. Sim, Inteligências.

No início do século passado, a ideia era a de que o ser humano tinha uma organização neural que permitia pensar de forma lógica e racional – surgiu então o conceito de QI – Quociente de Inteligência, quando testes mediam o nível de inteligência do indivíduo através de qualidades lógicas. Isaac Newton tinha 190; Einstein, 160!

Na prática, no entanto, nem sempre os mais bem-dotados intelectualmente eram os mais competentes para exercerem determinadas funções: gênios tinham, por exemplo, extrema dificuldade para os relacionamentos ou para a vida prática. O conceito de Inteligência Única foi então ampliado para Inteligências Múltiplas (IM) pelo psicólogo e pesquisador americano Howard Gardner, na década de 80, que chegou a oito diferentes habilidades naturais que compunham o conceito. Mais tarde, ampliando para onze.

Foi só em 1995 que o psicólogo Daniel Goleman apresentou o conceito de Quociente Emocional (QE) ou Inteligência Emocional – que dá ao ser humano a capacidade de reconhecer seus sentimentos, lidar com suas emoções e, consequentemente, reconhecer as emoções dos outros criando relações mais saudáveis. E sobre Inteligência Emocional não é preciso falar, porque todo mundo lê, todos os dias, inúmeros artigos sobre o assunto, participa de workshops para aprender a ter IE, discute em grupos. Extremamente importante, sem dúvida!

Voltemos então a falar de QS, a Inteligência que é a base essencial para que todas as outras operem com eficiência – porque vai muito além das capacidades intelectual e emocional ao colocar as ações e experiências num amplo contexto de sentido e valor.

Na década de 90, Vilanu Ramachandran, neurologista, e Michael Persinger, neuropsicólogo, identificaram, através de escaneamentos no cérebro, uma área que se iluminava a cada vez que as discussões giravam em torno de temas espirituais. Nas inúmeras repetições dos testes, identificaram, nas conexões neurais nos lobos temporais, um ponto ligado à necessidade humana na busca do sentido da vida, ao qual chamaram de “o Ponto de Deus”.

Numa sociedade em crise como a nossa, onde o assunto espiritualidade provoca um certo desconforto, vale a pena falar do ponto de vista científico. Segundo Danah Zohar, a Inteligência Espiritual está ligada à nossa necessidade de ter um propósito de vida que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que norteiam nossas ações em sociedade. É uma inteligência que nos impulsiona, que transforma nossa vida deixando-a mais rica e cheia de sentido. E encontrar esse sentido mais amplo, para além da sobrevivência, é uma necessidade que sempre esteve presente na história da humanidade; leva-nos a compreender o “sentido de pertencer”, de fazer parte de algo maior ao ampliar a nossa percepção de que somos todos interligados e interdependentes nesse grande círculo de relações em que vivemos, abarcando também o planeta.

É a nossa Inteligência Espiritual, em maior ou menor grau, que nos faz sair em busca da autoconsciência; desenvolver qualidades baseadas em valores como o amor, a compaixão, a capacidade de perdoar, a tolerância, a paciência, a harmonia, a responsabilidade perante o mundo que nos leva a acreditar nas pessoas; que nos dá capacidade para lidar com as adversidades e a capacidade de ir além dos nossos interesses pessoais ao compartilhar nossas ideias.

Desenvolver a Espiritualidade é apenas usar nossa Inteligência Espiritual para transformar o mundo em um lugar melhor, agindo com base em motivações mais elevadas – tomar atitudes a partir do que temos de melhor, a nossa dimensão interior, a nossa capacidade de reconhecermos nos outros a nossa própria humanidade, aceitando a diversidade e nos movimentando para o bem comum.

O potencial está aí, faz parte de todos nós; o que nos falta é apenas recuperar a consciência de que cada um é responsável por si mesmo. E – devido à nossa conexão espiritual – também por todos.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Coach e Consultora, trabalha com Desenvolvimento Pessoal/Profissional, treinamentos e mudança Cultural em empresas, abordando temas como Compliance & Ética, Liderança & Gestão, Alta Performance e Comunicação Interpessoal, entre outros.

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Comportamento

O menino é o pai do homem

Não é viável excluir algum segmento populacional do debate sobre educação sexual, ou restringir os espaços em que ele ocorre.

Paula Akkari

Publicado

em

Foto: Vimeo

Com a incerteza da permanência dos necessários debates sobre educação sexual nos colégios, fui convidada a lembrar de eventos da minha vida escolar. Pincelo alguns deles, com o saber de que os sofrimentos decorrentes deles seriam multiplicados se interseccionados com questões de raça e classe.

(Aviso de gatilho para assédio sexual e questões corporais)

No Ensino Fundamental, os garotos descobriram que meninas tem seus corpos desenvolvidos, sendo cada um único e incompatível com os propagados pela mídia. Mal resolvidos, tentavam organizar a realidade ranqueando a beleza das garotas da sala, xingando as magras, ridicularizando as gordas e espalhando desenhos caricaturescos das remanescentes. Por vezes, se organizavam no corredor do banheiro para passar a mão no corpo das meninas que lá passavam desacompanhadas. Por outras, tiravam em seus Nokias fotos de pares de pernas em shorts, para posterior propagação no MSN.

Mudei de escola no colegial. Não houve repetição dos fatos por ter ocorrido uma atualização deles, proporcionada por aumento de repertório intelectual e disponibilidade de recursos tecnológicos. A moda masculina da época era os meninos divulgarem suas (supostas) experiências sexuais, acrescentando maldizeres a toda e qualquer colega (hipoteticamente) sexualmente ativa. No ambiente virtual, as ações multiplicavam-se inconsequentemente nos aplicativos de mensagens anônimas. Por fim, vale citar o marcante evento “concurso de beleza” no último dia de aula, quando os garanhões saudosos gritavam notas como “gostosa”, “gorda” e “sem sal” para as estudantes arrastadas ao palco.

Havia uma tentativa de justificar as agressões via “hormônios” e “inocência” e a promessa de que “com o tempo elas melhoram”. Além de ser ridículo reduzir manifestações de violências estruturais ao âmbito pessoal, as premissas são empiricamente comprovadas falsas. Uma ilustração recente de suas desonestidades é o fato do sexagenário presidente Jair Bolsonaro ter zombado da aparência física da professora e primeira-dama Brigitte Macron em rede social.

A sugestão machadiana reverbera: “o menino é o pai do homem”. Brás Cubas “cresceu e a família não interveio”, “mereceu desde os cinco anos a alcunha de menino diabo, verdadeiramente não foi outra coisa; foi dos mais malignos de seu tempo”. O resultado não teria como ser diferente da tragédia anunciada.

Não é viável excluir algum segmento populacional do debate sobre questões sociais ou restringir os ambientes em que ele acontece . É necessário persistir na conscientização de que interesses mobilizam os homens a reproduzirem machismos e mostrar que eles produzem consequências negativas inclusive em suas próprias vidas. Até quando eles serão protegidos pela consideração, por tempo indeterminado, de que são “apenas meninos”?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento

BIAS: Como identificar vieses inconscientes para tomar melhores decisões

Quando tomamos decisões enviesadas estamos sujeitos a erros e julgamentos precipitados sem consciência – confira como a questão também pode influenciar no ambiente de trabalho

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Foto: Nathan Dumlao / Unsplash

Vieses inconscientes são modelos e pressupostos enraizados desde a nossa infância que vão determinar a forma como tomamos decisões, agimos, julgamos, interpretamos e nos comunicamos com o mundo. São preconceitos a favor ou contra um indivíduo ou grupo, gerados a partir de experiências pessoais, contexto cultural e estereótipos sociais. Funcionam como atalhos do cérebro que nos ajudam a tirar conclusões, fazer avaliações rápidas das situações e processar informações, de acordo com esses “dados armazenados”. É como se fosse um mecanismo de defesa da nossa mente diante da grande quantidade de decisões que precisamos tomar todos os dias.

Estudos afirmam que levamos em média 6 segundos para formarmos uma opinião sobre alguém por conta desses atalhos. A questão é que esse artifício pode nos levar a julgamentos precipitados e errados e nem sempre percebemos. Um ponto importante é que TODOS nós temos vieses inconscientes. A proposta aqui é exatamente ajudar você a reconhecer os seus para que você saia do piloto automático e passe a tomar decisões mais conscientes e justas.

Alguns tipos de vieses inconscientes:

Viés de afinidade
Quando somos atraídos por pessoas parecidas conosco. Na seleção de um candidato, por exemplo, somos tendenciosos a escolher pessoas com quem compartilhamos alguma afinidade, seja por gênero, raça, alguém que prestou a mesma faculdade, nasceu na mesma cidade etc.

Viés de percepção
Quando reforçamos estereótipos – conceitos generalizados sem fundamentos – influenciados pela sociedade ou cultura. Por exemplo, quando partimos do pressuposto de que determinada profissão ou atividade é só para homens.

Viés de confirmação
Quando favorecemos as informações que confirmam o que já acreditamos. Por exemplo, buscamos informações que confirmam nossas crenças e descartamos inconscientemente informações contrárias.

Viés de grupo
Quando seguimos o padrão de um grupo, que pode fazer com que todos busquem concordar com a mesma ideia.

Viés da âncora
Quando confiamos demais na primeira informação que recebemos e ficamos ancorados nela. Por exemplo, se a primeira informação diz que X é um problema, veremos X como um problema ao invés de nos questionarmos.

Dicas de como evitá-los

• Esteja ciente dos diferentes tipos de vieses inconscientes;
• Pense nas situações em que você provavelmente será suscetível ao viés inconsciente;
• Encontre seus pontos de gatilho quando for provável que faça julgamentos rápidos;
• Peça para que os outros apontem caso acreditem que a decisão pode estar enviesada;
• Saia da sua zona de conforto e procure entender outros modelos de mundo.

Nem sempre é fácil detectar a influência de alguns vieses. Outras medidas para combater o viés inconsciente podem ser: virar a situação – imagine um grupo diferente de pessoas ou mude o gênero, por exemplo, para ver se você ainda chegaria às mesmas conclusões, contra-estereotipar imaginando a pessoa como o oposto do estereótipo, ver todo mundo como um indivíduo e não como um tipo.

No processo de recrutamento e seleção e no ambiente de trabalho

Diversas organizações estão adotando medidas para lidar com essas questões. Por exemplo, os líderes são educados sobre diferentes tipos de vieses que podem impactar suas decisões na hora de selecionar um candidato, promover ou delegar um projeto e como evitá-los. As avaliações são conduzidas pelo desempenho e não pela identidade dos funcionários (gênero, raça, orientação sexual etc).

Pesquisas indicam que os gerentes são tendenciosos a dar feedback para as mulheres com base em julgamentos e não em fatos. Ensinar os gerentes a levantarem fatos e comportamentos específicos ao fornecer feedback também pode ajudar a reduzir o viés no trabalho. Abordar sobre o tema contribui ainda para a questão da diversidade e igualdade nas organizações, você pode ler artigo sobre o assunto aqui.

Como percebemos, é possível driblar os artifícios do cérebro colocando o pensamento analítico em ação. Basta refletir e duvidar das suas escolhas e opiniões. Agora que você sabe como funcionam os vieses inconscientes, está livre para tomar melhores decisões.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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