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Literatura 3 MIN DE LEITURA

O morador de livros

Essa é a história de Chambacinaja

Paula Akkari

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Foto: Paula Akkari / Jornal 140

Essa é a história de Chambacinaja, o morador de livros.

Chamba nasceu há 46 anos. Seu nome faz referência a sua terra natal, Campo Grande, e a origem de sua mãe, indígena do Catimbó: “Chambá” da planta medicinal e “Inajá” da palmeira encontrada no centro-oeste.

Seu pai é caminhoneiro, percorreu todas as paisagens brasileiras. Com um ano de idade, viajaram juntos e só pararam na baixada santista. Estabeleceram-se na Vila Fátima, bairro periférico em São Vicente. Então, cresceu com o sonho de conhecer São Paulo. Um símbolo deste é sua lembrança de, aos 17 anos, assistir um comercial de televisão que mostrava Sampa nascendo e amanhecendo, e ter a certeza de que  “é isso o que eu quero para mim”.

Sua realização não se iniciou de forma agradável. Pouco antes da maioridade, foi institucionalizado na Febem. Devido aos estigmas, sem coragem de encontrar seus pais envergonhados, caiu na estrada sem despedidas, rumo à capital do estado.

Em moradas itinerantes, na metrópole se estabeleceu. Trabalhou na cozinha de uma fábrica de marmitex, na zona sul. E assim sustentou-se até a época do Plano Collor. Questões administrativas junto ao cenário econômico desfavorável aos trabalhadores culminaram em sua demissão. Considera este o marco de sua “grande epopeia”.

Eis que foi preso por porte de maconha. Afinal, se não há branquitute ou poder aquisitivo para pagar fiança ou suborno, vão-se 31 dias úteis em grades. “Fazem isso pra tirar dinheiro, não pra tirar gente perigosa da rua”. “Foi uma tortura” a cela lotada, o abuso de autoridade, a falta de condições. Tornou-se “saturado” da vida.

Em liberdade, recorreu ao único recurso  acessível, o paradoxal vício entorpecedor. Foi figurativa e literalmente às profundezas, dormia de dia no Buraco da Minhoca, debaixo da Praça Roosevelt, sobrevivia à noite. “Estava se castigando emotivamente”.

“Precisa querer sair”. Com ajuda de amigos, não sem dor, saiu. “Sentiu limpeza”. Conseguiu bicos como ajudante de entrega de gelo. Aprendeu a costurar.

Então, passou a vender as bolsas que produzia – inclusive, fez uma página para divulgar seu trabalho. Das muitas adversidades de sua rotina, uma foi especialmente transformadora: um assalto, a perda de todo o seu pouco. Chamba esforçou-se ativamente para não ter raiva, “não ajudaria nada”. Então vagou com pouco rumo em direção ao Ibirapuera, lugar que sempre achou bonito e que esperava despertar boas emoções, que estavam faltantes. No caminho, ao procurar alimento nas lixeiras, achou sete livros. E fez deles seus novos pertences.

Quando o andarilho encontrou uma rua onde sentiu a ilusão de segurança, nomeou uma esquina sua nova morada. O diferencial dela era a exposição dos seus exemplares no chão. Os passantes, novos amigos, acabaram gostando da ideia, e doaram alguns outros, junto a revistas, gibis e cadernos. Chambari descobriu-se sebo.

Ele mora nos livros e com eles. Faz permutas por trocados e conversas. Recebe feliz as novidades, para as quais sempre terá abertura. Aprendeu que as leituras são mundos, remédios e emoções.  Por “de médico e louco todo mundo ter um pouco”, sua estratégia para fazer indicações literárias é conhecer a demanda do outro, uma vez que “não poderia sugerir uma medicação se não sabe o que a pessoa está sentindo no momento”.

Embora tenha, conforme todas as suas possibilidades, construído um presente, seu futuro é incerto. “O governo não vai ser bom para as pessoas em situação de rua. Eles nem sabem o que fazem, batem, xingam, roubam, matam…” Para sobreviver, procura não pensar nas dores ou nos amigos que se foram. Fez-se necessário alienar-se para continuar vivo.

Por ora, é possível encontrar o homem e sua vitrine ambulante pelas ruas de São Paulo. E que sejam duradouras as sucessões de suas persistências invisíveis.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Paula Akkari é estudante de Psicologia na PUC-SP e foi intercambista na Universidade do Porto. Além de possuir experiência na área da Educação, é Diretora de RH na PsicoPUCJr e escritora.

Literatura 2 MIN DE LEITURA

Maratona Literária: Livros para se ler em 1 dia

Final de ano é sempre uma ótima época para colocar em dia a leitura. Nesse artigo você vai encontrar dicas de alguns livros para ler em 1 dia.

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Foto: Annie Spratt / Unsplash

Final de ano. Sempre aproveito esse período de festas para fazer uma pequena maratona literária. Essa maratona consiste em alguns livros curtos, mas não menos impactantes, onde a leitura pode ser feita em 1 dia – logicamente dependendo de quantas horas a pessoa dedicar para a leitura.

Bom, resolvi listar aqui alguns livros que eu li nos anos anteriores para você aproveitar essa época.

Intermitências da Morte

Esse livro é incrível. Ao longo de menos de 200 páginas, o Saramago nos transporta para uma semi-distopia em que as pessoas simplesmente deixam de morrer. Logicamente, como na maioria das obras desse autor, ele utiliza-se de absurdo para nos fazer refletir sobre algumas questões centrais da sociedade, como, por exemplo, o papel da morte no curso natural da vida.

A Filha Perdida

Esse é um dos melhores livros da Elena Ferrante. Nessa história, uma mulher de cerca de 40 anos vai passar alguns dias na litoral da Itália e, ao longo desses dias, ela começa a ter contato com uma família que também está passando férias no mesmo lugar. Esse é o pano de fundo para um livro que fala sobre a maternidade, culpa e arrependimentos.

O Sol na Cabeça

Esse livro de contos é simplesmente um achado incrível. Trata-se da primeira obra do Geovani Martins. Os contos são um retrato incrível da vida de pessoas comuns nas comunidades do Rio de Janeiro. É incrível e visceral.
Recomendo o conto “Roleta-Russa”.

As Coisas

Outro livro de contos. Já virei fã do Tobias Carvalho desde o primeiro conto desse livro. Trata-se de uma visão muito naturalista e, ao mesmo tempo poética, de pessoas comuns vivendo os seus desejos e dilemas.
Recomendo muito a leitura do conto “Cantiga de Roda”.

O Estrangeiro

Um ode ao niilismo. É assim que eu defino esse livro que é um dos mais famosos do Albert Camus. A falta de esperança e apatia do personagem é simplesmente desesperadora e, ao mesmo tempo, magnética.

A Revolução dos Bichos

Leitura obrigatória para os tempos atuais. Trata-se de uma fábula simples que diz muito sobre os regimes autoritários. Fica a dica: Prestem atenção em quem vocês colocam no poder!

Bom, é isso. Aproveitem o final de ano e boas leituras!

 

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Literatura 4 MIN DE LEITURA

O ano em que disse sim: 5 motivos para ler antes do ano novo

Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige.

Êrica Blanc

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Talvez você saiba quem é Shonda Rhimes. Talvez, não. Para que não reste dúvidas, Shonda Rhimes é uma roteirista incrível, criadora de séries como How to get away with murder, Scandal e, a mais famosa, Grey’s Anatomy. Shonda também criou a Shondaland, uma produtora de televisão americana. Tem três filhas e o céu é o limite para ela. Mas, Shonda sofria com a auto sabotagem e negava absolutamente tudo que lhe fosse assustador. Tudo que lhe tirasse da zona de conforto. Tudo mesmo! Entrevistas, eventos, palestras, sessões de foto. Shonda tinha pavor só de pensar. Até que sua irmã mais velha soltou uma frase que doeu mais do que um soco no meio do rosto, “Você nunca diz sim para nada”. Era verdade? Óbvio! Por isso doeu tanto.

Era véspera de virada de ano, praticamente. O ano de 2014 estava batendo na porta e, como uma resolução de ano novo, Shonda prometeu que diria sim para tudo que lhe assustasse. Tudo. E, com essa promessa, ela embarcou em uma jornada de autoconhecimento, novas aventuras e, é claro, a criação de uma Shonda que lhe faz muito mais feliz. O ano em que disse sim é um registro dos “sims” mais importantes e que transformaram a vida dela em um ano. É um livro incrível, que pode transformar sua vida, tanto quanto transformou a dela. Tem resenha completa aqui, mas em 5 itens eu consigo te apresentar motivos básicos e necessários para você ler O ano em que disse sim agora mesmo.

Minorias, sintam-se representados!

Se você considerar que esse livro é escrito por uma mulher negra, provavelmente já sabe que ele vai falar bem diretamente com as minorias sociais. Em um bate-papo de igual para igual, mulheres, nerds, gordos, negros, LGBTQs podem se sentir devidamente representados. Por que Shonda é como nós, curando feridas que a pressão social causou. Shonda é um de nós, que alcançou o outro lado. O lado em que somos livres das pressões e da opinião alheia. E, melhor do que isso, nos ensina e nos pega pela mão, para chegamos lá, junto com ela.

Sim ao não, sim a conversas difíceis

Eu não sei você, mas saber que vou precisar passar por uma conversa difícil me afeta de um jeito absurdo. Esses dias mesmo, precisei encerrar contrato com uns clientes que senti que me destrataram e mesmo sabendo que eu estava no meu direito, minha ansiedade foi ao limite. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e meu corpo estava gelado, suando frio. Shonda não era diferente. Shonda dizia sim para todo mundo, só para não passar pelo processo difícil de dizer não para alguém. Mas, no O ano em que disse sim, ela aprende a dizer sim, ao não. E tudo se transforma. É bem legal acompanhar esse processo dela e entender como precisamos aplicar isso em nossa vida também, sem dor ou sofrimento. E, dependendo da reação da outra pessoa, a gente percebe que na verdade, a pessoa nem merecia o nosso esforço ou amizade.

Pare com a auto sabotagem agora mesmo

Esse é outro ponto que eu me identifico da cabeça aos pés. Por que, sendo bem sincera, a minha pior inimiga, é a minha própria cabeça. Crio monstros, antes de por projetos em prática e desisto sem tirá-los do papel. Ou seja, auto sabotagem é um demônio que preciso matar todos os dias. E percebo que isso não é um problema só meu. Muito provavelmente você aí, que está lendo isso, sabe que é assim e também precisa de um ano para dizer sim e sair dessa de uma vez. Acima de qualquer coisa O ano em que disse sim, começou por que Shonda se sabotava e sua irmã percebeu. Então, durante a leitura, a gente tem a chance de se reavaliar e começar a querer sair desse ciclo horroroso de auto sabotagem.

Sim, para a pessoa mais importante da sua vida: V-O-C-Ê

Você sofre por sempre colocar as outras pessoas em primeiro lugar? Você costuma ajudar os outros antes mesmo de se ajudar? Então, esse livro é para você. Nessa jornada de autoconhecimento da Shonda, a gente consegue entender melhor sobre como ter esse tipo de atitude é prejudicial para todos aqui. Shonda aprende a se pôr em primeiro lugar. Dizer sim a sua saúde. Dizer sim a cuidar do corpo, tanto quanto cuida da mente. A dizer não a coisas que lhe fariam mal. Dizer sim a novas possibilidades. Tudo isso transformou Shonda e lhe fez cada dia mais feliz. Lhe trouxe de volta a vida. Pois, no fundo, O ano em que disse sim é sobre amor. Amor mesmo. Amor por você.

O ano está virando mais uma vez, vamos dizer sim juntos?

Sejamos sinceros, 2019 está no fim. 2020 vem aí. Toda virada de ano pensamos em tudo o que queremos fazer diferente no ano em que está por vir. Tudo o que queremos mudar em nós, para sermos mais felizes. Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige. Sim para nos colocarmos em primeiro lugar. Sim para termos responsabilidade emocional com nós mesmos. Sim para uma década mais feliz. Mais cheia de vida. Sim para sair do piloto automático e recuperar a alegria em cada um dos dias que estão por vir. Eu vou embarcar no MEU ano de dizer sim. Você vem comigo?

Conta nos comentários para o que você tem mais medo de dizer sim!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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