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Poder 2 MIN DE LEITURA

Necropolítica

Políticas como a de João Dória não são fatalidades isoladas, mas sim exemplos da combinação entre poder e morte em um contexto amplo.

Paula Akkari

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Foto: ev / Unsplash

A data 01/12/2019 consta no atestado de óbito dos 09 jovens mortos após ação policial em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.

As perdas foram noticiadas rotineiramente às autoridades, afinal, são resultados sintônicos às ordens do Governador de Estado. Cito o “gestor” em sua campanha:

“Não façam enfrentamento com a Polícia Militar nem a Civil. Porque, a partir de 1º de janeiro, ou se rendem ou vão para o chão. Se fizer o enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira. E atira para matar” – João Dória, em entrevista na Rádio Bandeirantes, em 01/10/2018.

Políticas como a de Dória não são fatalidades isoladas, mas sim exemplos da combinação entre poder e morte em um contexto amplo. Uma vez que a memória é resistência, vale citar o assassinato da menina Ághata no Complexo do Alemão e do fuzilamento do músico Luciano a caminho de um chá de bebê – 83 tiros contra uma pessoa.

O Brasil é solo fértil para tais ações: localizado na periferia do capitalismo, historicamente permeado por desigualdades e brutalmente acometido a pressões racistas e neoliberais. Terror e morte são elementos reiteradamente nele encontrados. O filósofo camaronês Achille Mbembe deu nome à tal vigente lógica: necropolítica.

Essa separa a vida viável da matável, dita quem pode habitar o Estado e ser reconhecido enquanto ser humano. Faz a subjugação de corpos ao horror, e enfim, ao óbito. Os afetados são as vítimas do alterocídio – processo que os constituiu não como semelhantes aos próximos, mas sim objetos intrinsicamente ameaçadores dos quais é preciso desfazer-se. Estes são os indivíduos em vulnerabilidades interseccionadas, os afastados devido aos processos de gentrificação, economicamente inúteis, politicamente embusteiros, sexualmente abomináveis  ou até mesmo aqueles cujos cadáveres simplesmente não seriam reclamados.

Se, segundo a óptica foucaultiana, o poder é simultaneamente destruidor e produtor, diz-se, portanto, que a necropolítica, além de definir quem e que grupos podem ir à óbito, é geradora das condições mortíferas às quais os corpos serão submetidos quando em vida.  Seus dispositivos atuam via práticas mortais, como nos assassinatos cometidos pelos braços do Estado (ou de agentes ambíguos, como as milícias), e também abstenções de ações, vide desinvestimentos em setores públicos vitais utilizados pelos grupos matáveis.

Além de seus resultados objetivos, é importante escancarar seus impactos nos processos de subjetivação pessoais.  A desautorização dos lutos, o sentimento de não-pertencimento e medo ocasionam um viver melancólico e limítrofe, com possibilidades vivenciais restritas ou quase nulas, fazendo restar a submissão silenciosa ao poder.

Como contracontrole social, há a lembrança, o barulho e a própria vida enquanto teimosia.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Paula Akkari é estudante de Psicologia na PUC-SP e foi intercambista na Universidade do Porto. Além de possuir experiência na área da Educação, é Diretora de RH na PsicoPUCJr e escritora.

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Poder 6 MIN DE LEITURA

A estratégia Sergio Moro, o efeito Tiririca e o macete do Tinder

Neurociência e crítica: como as estratégias políticas podem te ajudar a encontrar um(a) namorado(a)?

Bruna Maldonado

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Neurociência e crítica: como as estratégias políticas podem te ajudar a encontrar um(a) namorado(a)?

Dia 13 de junho foi dia de Santo Antônio, o nosso popular santo casamenteiro! E como manda a regra, milhares de solteiros pulverizaram memes e simpatias em prol da chegada, tão sonhada, de suas almas-gêmeas.

Uma superstição fofa, mas pouco estratégica quando comparada à equação matemática ensinada por Hannah Fry, professora da Universidade College London, no seu livro The Mathematics of Love (A Matemática do amor – ainda sem tradução para o português), que ensina como conquistar um relacionamento em Apps como Tinder, sem precisar colocar o santo de ponta cabeça.

Em parceria com o site norte-americano OkCupid, Hannah analisou profundamente todos os dados e comportamentos dos usuários do Tinder, ao longo destes anos, nos Estados Unidos, a fim de compreender qual seria a  fórmula do “match perfeito”.

Em sua análise Hannah constatou que dentre os 30 milhões de usuários do aplicativo, apenas 5 mil poderiam ser considerados como ‘perfis  campeões’ e (pasmem agora), que esta “nata tinderiana” não é composta pelos bonitões fitness, com belas poses em praias paradisíacas, e sim por candidatos que possuem 50% de rejeição (ou seja, que são arrastados para a esquerda por 50% dos eleitores).

Segundo os dados apresentados pela  OkCupid, os perfis com maior audiência são responsáveis por 70% do sucesso (encontros, namoros e casamentos) dos perfil mais “normaizinhos” (tipo o meu).

Fiquei intrigada ao ler isso, claro, e decidi usar meu pensamento lento-analítico (leia sobre, neste meu outro artigo) para compreender a lógica, e me surpreendi – acompanhe a minha linha de raciocínio:

  1. Fato: os bonitões recebem a maioria dos likes, mantendo-se no “hall dos populares” do App;
  2. Questionamento: como os bonitões do Tinder conseguiriam analisar 100% do potencial de cada like recebido, para decidir com qual conversar? Isso demoraria horas (ou dias, no caso do Sr. Morningstar ♥). Não seria possível;
  3. Compreensão: logo, os fatores ‘ordem de chegada’ e ‘abordagem inicial’ são tão importantes quanto a escolha das fotos;
  4. Questionamento final: o que acontece com os demais interessados que passaram desapercebidos pelos bonitões? Resposta: Darão likes em perfis dos ‘não tão exuberantes’, mas que terão tempo para desenvolver uma conversa (e minimamente avaliar os perfis apresentados), dada a sua menor expressividade no quesito ‘Ibope’.
  5. Conclusão: a probabilidade de um encontro para um perfil mediano é maior que a de um popular. Voilà!

Ou seja, pela teoria apresentada acima, não devemos nos intimidar pela popularidade da concorrência e sim agradecê-los!

SUPERLIKE: O efeito Tiririca na política brasileira

Cargos políticos como os de senador, deputado estadual e deputado federal nem sempre são conquistados pela métrica ‘votos recebidos’. O sistema proporcional de lista aberta, outorgado pela nossa constituição, defende que se um candidato recebe um número maior que o quociente necessário para sua eleição, os votos restantes podem ser repassados a outros candidatos do seu partido ou de partidos coligados.

O quociente eleitoral é calculado com base na quantidade de votos válidos, divididos pelo número de cadeiras no senado, por exemplo. Logo, se houverem 10.000 votos válidos e 10 posições à serem preenchidas, um partido só consegue eleger seu candidato se este quociente individual for alcançado (1.000 votos, neste exemplo); E quando ultrapassado, os votos excedentes podem ser repassados à outros candidatos que, por conta, não conquistaram os postos sozinhos.

No ano de 2010, o humorista cearense Tiririca (PR – Partido Republicano) conquistou a sua primeira vaga na Câmara, como Deputado Estadual de São Paulo, com o marco de 1,3 milhões de votos recebidos. Neste ano o quociente eleitoral foi de um pouco mais de 304 mil votos. O que nos mostra que, além da sua cadeira, o humorista também conquistou o direito a outras três posições que foram ocupadas, por Vanderlei Siraque (PT) e Delegado Protógenes (PC do B). Sabe aquela tese do “bonitão do Tinder”, pois é, também funciona bem no Congresso mas, neste caso, sem o frio na barriga de um match legal.

Por isso é necessário conhecer a fundo a coligação a qual o seu candidato pertence, pois sem perceber você pode estar votando no Tiririca, contudo, elegendo a Florentina (que nem sempre é um “partidão”).

Sergio Moro e Lula: o match do milênio

Avaliar opções não é uma tarefa difícil apenas para os librianos (rs), todo ser humano proprietário de um cérebro passa por este dilema.

Segundo o neurocientista francês Jean-Philippe Lachaux, autor de diversos livros sobre o tema e diretor do Laboratório de Pesquisas Cognitivas do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica) em Lyon, o nosso cérebro limita os nossos esforços de comparação tendenciando à desatenção, quando exposto a centenas de opções de matches, por exemplo.

A mesma dificuldade é percebida quando tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo, o que o cientista também defende não ser possível com 100% de atividade cerebral.

A equipe de Lachaux estuda os mecanismos cerebrais que são responsáveis pela nossa atenção, mais especificamente os neurônios envolvidos no processo, incluindo os aspectos químicos e fisiológicos das sinapses.

Os estudos realizados provam que só é possível fazer duas coisas ao mesmo tempo se uma delas for feita de maneira automática pelo nosso cérebro (ou seja, sem 100% do uso da CPU) – como correr em uma esteira ouvindo música.

Porém, ler emails durante uma reunião ou conversar com várias pessoas ao mesmo tempo no Tinder (ações que requerem a alternação de foco e o uso intensivo de nossa máquina pensante), por exemplo, não são possíveis com total atenção, pois contrariam a natureza cerebral e “fragmentam a vida cognitiva”– afirma Jean-Philippe Lachaux.

Para realizar várias tarefas de forma simultânea, que exigem atenção e concentração, o cérebro teria que  ser capaz de utilizar a mesma rede neuronal nas ações, o que é fisiologicamente impossível. Esse é o caso de atividades gerenciadas pelo córtex pré-frontal, como a compreensão de um texto.

Você pode chegar a esta mesma conclusão caso já tenha sido interrompido durante a sua leitura, por uma pergunta de alguém que estava por perto. Das opções de reações você pode ter: 1- Ignorado; 2- Proferido uma resposta automática rápida monossilábica (tipo ‘não’) ou 3- Precisou parar o seu raciocino (…) responder (…) e então reiniciar o seu foco para continuar a ler. É elementar, meu caro Watson!

Se nos dedicarmos a compreender a individualidade da nossa capacidade cerebral de foco, entenderemos como a aceitação do ex-juiz Sergio Moro ao cargo de ministro da Justiça pode jogar muito mais a favor de Lula, do que dele mesmo. Explico:

A atuação de Sergio Moro na operação Lava-Jato foi condecorada com o convite do atual presidente, Jair Bolsonaro, para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública, propondo assim um acréscimo de focos à sua atuação – uma vez que nem todos os problemas judiciais do país se resumem aos escândalos “petrobrasilianos”.

Posta a atual situação política do nosso país, fico aqui imaginando como deve ter sido difícil receber as notícias sobre os vazamentos, via The Intercept, durante o momento em que Moro estudava outra pasta judicial – com certeza ele não deu uma resposta monossilábica do tipo “esquerda” e continuou seus afazeres -, não é mesmo?

Neurológicamente, deve estar bem complicado manter o foco em outras ações, principalmente se considerarmos que, ao final do seu mandato, o atual ministro deverá apresentar diversos resultados obtidos, e não apenas um único.

Até o presente momento Sergio Moro está mais para “o bonitão do Tinder”: que com sua popularidade angariou votos para um partido, e que agora não consegue dar total atenção ao seu propósito como um todo (pois ainda está preso às mesmas questões de quando era juiz. Baita dilema).

Desta maneira, a popularidade de Moro e seu limite humano cerebral favorecem o seu antigo réu, o ex-presidente Lula – cuja atividade cerebral está focada exclusivamente em promover a sua defesa, sem ter que se preocupar com outros afazeres –, o que explica a queda de popularidade do ministro, apontada na pesquisa feita pelo instituto Atlas Político, nos últimos dias 11 e 12, após a Vaza Jato…

E talvez também o fato de Lula estar namorando, afinal ele faz parte daqueles 50% de rejeição (que são arrastados para a esquerda por 50% dos eleitores).

Ilustração: Gabriela Yaroslavsky / 140 Design

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Poder 8 MIN DE LEITURA

Bolsonaro, Lula ou Batman?

Todos nós passamos boa parte da infância elegendo personagens fictícios criados para nos encorajar à vencer. Alguns destes usam capas, outros têm poderes paranormais mas, de forma geral, todos trazem a mesma mensagem “o bem sempre vence o mal”.

Bruna Maldonado

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Todos nós passamos boa parte da infância elegendo personagens fictícios criados para nos encorajar à vencer. Alguns destes usam capas, outros têm poderes paranormais mas, de forma geral, todos trazem a mesma mensagem “o bem sempre vence o mal”.

Mas o que, enfim, é o mal?

Pablo Escobar Gaviria é considerado um dos maiores traficantes da história do narcotráfico, no mundo. Responsável confesso por milhares de assassinatos e dezenas de ataques terroristas contra os seus próprios conterrâneos.

Retratada em “Narcos” e em “El Patrón del mal”, séries produzidas e veiculadas pela Netfix, sua história nos apresenta uma realidade dúbia ao expor que uma parte considerável da população colombiana o considera, até o presente momento, um herói – ou Santo Escobar, como ilustra os cartazes que ainda decoram casas, em bairros de extrema pobreza ajudados pelo Patrón.

Matematicamente, a personalidade de Pablo Escobar deveria ser concluída sob a média entre os seus atos bons e os seus atos ruins. Mas quem disse que o nosso senso de julgamento têm raízes em exatas? A nossa “calculadora” arbitrária se baseia nas experiências vividas ou sensibilidade para com a causa apresentada. Logo, se você já perdeu um ente querido por causa das drogas, provavelmente você fará parte da parcela mundial que o condena. Contudo, se tivesse sobrevivido às precárias condições do saneamento colombiano graças às obras de caridade realizadas por Escobar na época, talvez você jogaria no time de defensores do narco.

Subentendo, então, que o julgamento entre o bem e mal é relativo; E que não deve ser fácil ser o Bruce Wayne.

Façamos agora uma ponte aérea da Medelim de Escobar para Brasília/DF – vamos trocar de narcotráfico para tráfico de influência e juntos (e shallow now) promover uma análise reflexiva:

Em qual dos seguintes grupos você se encaixa?

• Massa de manobra ou Apoiador de golpista?
• Cidadão de bem ou Defensor das minorias?
• Bolsominion ou À favor do Luladrão?

Matematicamente, eu diria, dessa vez não se pode calcular. Pois ao contrário de Pablo Escobar, que foi eleito como Persona non grata e também como Santo, após os seus atos, na política primeiro nós elegemos para depois avaliarmos. Logo, se nos embasarmos em um conceito de justiça (palavra forte para o período que vivenciamos, eu sei) concordaremos que todos temos boas e más experiências de todos os governos, e que prover títulos que nos dividam entre ‘o time com camisa’ e ‘o time sem camisa’, na verdade só descaracteriza o nosso poder enquanto povo.

Subentendo, então, que a soma, e não a divisão, seria o mais sensato (agora coube um pouco de exatas); E que deve ser difícil ser eleitor em um país onde os políticos fazem uso de técnicas de manipulação neurocientífica para angariar votos (proteger Gothan city é fichinha!).

Neurociência: Quem quer ser o Batman?

O neurocientista e cinesiológo E. Paul Zehr desenvolveu uma tese que ensina como uma pessoa pode se tornar o Batman – analisando a fisiologia, treinamento e força de vontade que uma pessoa precisa para isso. O especialista garante: mesmo que você nunca faça parte da Liga da Justiça, você ainda pode se tornar mais parecido com o Cavaleiro das Trevas.

Zehr é professor de cinesiologia e neurociência na Universidade de Victoria, em British Columbia, no Canadá. Ele também é o autor de dois livros sobre a ciência de super-heróis: “Becoming Batman: The Possibility of a Superhero” (“Tornando-se Batman: A Possibilidade de Um Super-herói”, em tradução livre) e “Inventing Iron Man: The Possibility of a Human Machine” (“Inventando o Homem de Ferro: A Possibilidade de Uma Máquina Humana”, em tradução livre). Ele também escreveu um livro de ficção voltado para pré-adolescentes, “Project Superhero” (“Projeto Super-Herói”, em tradução livre).

O especialista faz palestras pelo mundo todo e sempre as inicia com a mesma pergunta: “Quantos de vocês gostariam de se tornar o Batman, a Batgirl ou o Homem de Ferro?” Como resposta, em média, a maioria dos presentes erguem as mãos.

Ele então emenda uma segunda questão: “E se eu dissesse a vocês, àqueles que querem se tornar o Batman, que há um processo envolvido e este processo dá muito trabalho, quantos ainda gostariam de assim o ser?”. Ele então descreve o tempo e treinamento que seriam necessários, e como consequência o número de mãos erguidas é dizimado.

Eis a questão e a resposta: sentimo-nos aptos a julgar, mas nem sempre dispostos a fazer melhor – mas por quê?!

Como o nosso cérebro nos faz escolher entre Batman, Lula ou Bolsonaro?

O cérebro humano é o órgão mais complexo do nosso corpo. Tem 86 bilhões de neurônios, que podem formar até 100 trilhões de conexões. Se fosse possível criar um computador com o mesmo número de circuitos do cérebro, ele consumiria uma quantidade de eletricidade de 60 milhões de watts por hora, segundo uma estimativa de cientistas da Universidade Stanford. O equivalente a 0,4% de toda a energia produzida pela usina de Itaipu. Contudo, o cérebro humano gasta apenas 20 watts por hora, menos que uma lâmpada de LED, e consegue realizar façanhas extremamente complexas que deixam qualquer Macintosh com inveja.

Claro que para que esta proeza seja possível, o nosso cérebro faz uma série de economias, de forma que a ciência já comprova que nós passamos 4 horas de cada dia no “modo avião”. Isso mesmo, nem todas as nossas ações/ decisões são processadas do zero pela nossa máquina pensante, a grande maioria são projeções cerebrais baseadas em nosso histórico de vivência – sabe quando você dirige até um local e ao chegar conclui que não sabe como chegou até lá? Pois é, você não é maluco (ufa), o seu cérebro reprojeta comportamentos repetitivos para poupar esforços.

Esta mesma economia também é feita durante o nosso processo de julgamento. Por isso, muitas vezes, julgamos o livro pela capa (nossos valores vividos são projetados instantaneamente fazendo com que julguemos as pessoas por sua aparência, vestimenta ou escolhas políticas). Ou seja, o seu cérebro quase não faz esforço para que você conclua se Sérgio Moro é corrupto ou não (uma análise morfológica sobre o tema faria com que o nosso córtex gastasse infinitamente mais energia, e isso não seria legal). Por isso é válido dizer que o nosso método “racional” de julgamento é muito mais passível de falha do que de acerto, afinal o nosso cérebro mente para nós, descartando algumas informações para simplificar a realidade e “economizar dados”.

“São efeitos colaterais do funcionamento normal do cérebro”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nosso cérebro trabalha com dois tipos de pensamentos: o rápido-intuitivo e o lento-analítico. O primeiro é uma projeção instantânea (como explicado no parágrafo anterior) para decisões imediatas e o segundo é uma espécie de garantia para o primeiro.

Ao decidir para onde viajar no verão, por exemplo, podemos considerar ir para Cancún ou à Maragogi. Mas por que apenas esses dois lugares surgem como alternativas, no momento? Por que não Marrocos ou Manaus? Resposta: o pensamento rápido-intuitivo já estava inclinado a estas opções, antes mesmo do momento em que você se sentou em frente à agente de viagens, restringindo os números de opções – do contrário, as férias acabariam e você ainda estaria a analisar todas as reais possibilidades de roteiros.

Entende agora como os testes psicológicos do Detran são realmente eficazes? A forma como traçamos uma reta em uma folha de papel pode sim apontar nosso perfil comportamental (pois as projeções instantâneas são resultados das nossas experiências, memórias e sentimentos). Ainda não acredita? Então te desafio a responder a questão abaixo:

Com R$ 1,10, você pode comprar um café e uma bala. O café custa R$ 1 a mais do que a bala. Quanto custa a bala? Responda rápido. Dez centavos, certo?

Sinto informar, mas seu cérebro acabou de te enganar (o meu também, se isso te conforta, rs). A resposta correta é R$0,05.

Este desafio é parte do livro “Thinking, Fast and Slow” (Pensando, Rápido e Devagar, ainda sem versão em português), escrito pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, em 2002, por suas pesquisas sobre o comportamento humano.

Ao responder R$0,10 você usou o pensamento rápido-intuitivo (aquele que nos enganou). A resposta correta seria R$0,05. Se a bala custasse R$0,10, o café custaria R$1,10 – e o total daria R$1,20.

A teoria mais famosa de Darwin explica porque a maioria das nossas conclusões e julgamentos tendem a ser mais instintivas do que racionais:

Se considerarmos que o Córtex pré-frontal, que é a região do nosso cérebro responsável pelo processamento lógico de informações, foi desenvolvida após a evolução Sapiens sapiens, enquanto os instintos baseados em emoções acompanham toda a história da evolução humana desde o início, compreendemos. Ou seja, não somos tão racionais como achamos ser.

Um outro dado importante revelado em um estudo, feito pela University College London, é que todos nós tendenciamos ao otimismo. Durante a pesquisa, a atividade cerebral de voluntários foi registrada enquanto eles imaginavam situações futuras (o que você irá almoçar amanhã, por exemplo). O mesmo registro foi feito para situações de passado vivenciadas por cada um (uma viagem feita, por exemplo).

O resultado apontou que as mesmas estruturas cerebrais são ativadas para recordar o passado e imaginar o futuro. Só que, ao imaginar o futuro, os voluntários criavam cenários magníficos (otimistas).

“Cerca de 80% das pessoas têm tendência ao otimismo, algumas mais do que outras”, afirma Tali Sharot, em seu livro “Optimism Bias” (O Viés do Otimismo, ainda sem versão em português), o otimismo é sempre mais comum que o pessimismo – seja qual for a faixa etária ou o grupo socioeconômico da pessoa.

Toda esta neurociência exposta acima prova o quanto as nossas escolhas políticas são, na maioria dos casos, muito mais insensatas do que realistas, uma vez que a maior parte da população se baseia em manchetes sensacionalistas e posts de Facebook para tomada de decisão (pensamento rápido-intuitivo).

Para que não cometamos o mesmo erro nas próximas eleições, a sugestão é nos permitirmos fazer uso do modo de pensamento lento-analítico: pesquisarmos a fundo o histórico econômico do país, os precedentes de cada item no cardápio de candidatos e fazer comparativos realmente lógicos. Isso dá trabalho? Dá! Gasta mais energia cerebral? Ô se gasta. Mas a boa notícia é que agindo assim não nos dividiremos da forma competitiva como temos feito nos dias atuais.

Concluo então que o pensamento rápido-intuitivo tem manipulado o resultado das eleições brasileiras. E declaro que, agora que você sabe disso, tem a obrigação de aprender a controlar o seu córtex; E que brigar por política sem uma real análise lenta-analítica é o mesmo que aposentar o Homem de Ferro do time dos Vingadores (sim, essa última é uma crítica pessoal).

Foto: Angela Hsieh / Illustration

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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