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Comportamento 5 MIN DE LEITURA

Jung explica: O método de análise psicológica em destaque no Brasil

‘O Futuro da Psicologia Analítica está no Brasil’. Essa foi a frase dita por uma das maiores mentes do século 20, responsável por investigar os aspectos inconscientes da alma humana.

Jorge Massarollo

Publicado

em

Foto: Pawel Szvmanski / Unsplash

Arquétipos, Complexos, Self, Sombra, Persona, Sincronicidade, Introversão, Extroversão, é comum nos depararmos com esses termos em alguma matéria, artigo, revista ou sessões de terapia, soando com um ar especulativo e místico. Os curiosos, descobrem o fundo psicológico que essas expressões carregam, e os aventureiros, se deparam com um universo profundo de onde emergem, deuses, mitos, símbolos, imagens *numinosas e forças inconscientes.

*Numinoso: Adjetivo para um estado de espírito que é influenciado, que se encontra inspirado pelas qualidades transcendentais do Divino, mistério e o sagrado

Assuntos tratados pela ciência cartesiana como mero descaso psicológico, fantasias e truques baratos, resquícios de uma mente primitiva imersa em um mundo espiritual de crenças aquém à luz da consciência. Destarte para o psiquiatra suíço fundador do método denominado de psicologia analítica, todos esses fenômenos englobam parte existente e ativa da vida humana.

Carl Gustav Jung, psiquiatra criador desse método de análise terapêutica nasceu no ano de 1875 em Kensswil (Suíça), em plena época de movimentos ideológicos como o romantismo e naturalismo, em contraparte a grandes duas guerras mundiais. As influências dualistas de dois extremos da época o fizeram teorizar sobre as potências inconscientes que dominam “sutilmente” as ações humanas.

Jung foi aluno direto de Sigmund Freud, o pai da psicologia, tão grande era a estima de Freud por seu pupilo, que o suíço chegou a assumir brevemente o cargo de presidente da associação internacional de *psicanálise. Todavia devido a divergências sobre o cerne da questão que envolvia a energia psíquica, ocorre em 1913, um rompimento total da relação de ambos. Acontecimento necessário para que mais tarde Jung desse continuidade a seu próprio método de análise.

*Psicanálise: Método de análise terapêutica criado por Sigmund Freud.

Nos mais de 16 volumes compilados, declarados como sua Obra completa aqui no Brasil, Carl Gustav Jung nos leva além da consciência, ao investigar os fatos profundos e ocultos da alma humana.

Seja por sua experiência de vida pessoal ou o coletivo de ideias a ele contemporâneas, os pensamentos e teorias desse autor sobre o comportamento humano revolucionaram o campo prático e empírico da psicologia, ao problematizar a questão simbólica e transcendental, como fenômeno atuante na psique e determinante no processo de desenvolvimento do ser humano.

Seu método se preocupa em investigar a psique, no sentido de alma, compreendendo os fenômenos da mesma como manifestações de fatos psíquicos, que integram através de símbolos os fenômenos duais de nossa existência.

A teoria mais “polêmica” por ele elaborada, também é a base de seu método de análise psicológica. O inconsciente coletivo, como o nome indica é um cenário da mente humana do qual não possuímos consciência, este abrange todos os conteúdos simbólicos e arquetípicos da humanidade como espécie, é um campo acrônico, não-espacial, e impessoal, que contém todas as experiências humanas, passadas biológica e psicologicamente através das gerações.

A hipótese desse campo inconsciente, tem como base além da experiência clínica, a investigação dos sonhos. Esse método compreende a análise das imagens simbólicas, que emergem do inconsciente no momento de sono, onde nossa capacidade consciente está ausente. Os sonhos são uma importante ferramenta no trabalho analítico, curiosamente esse tipo de técnica já era utilizada antes mesmo de Cristo, pelos Gregos, obviamente com focos e abordagens diferentes, mas já compreendidos como aspecto relevante para a mente humana.

Na busca da compreensão do mundo simbólico dos sonhos e sua gama de significados, parte do trabalho de um psicólogo analítico é o estudo profundo de mitos, contos e lendas. Estes são outra forma de expressão simbólica, através de narrativas que exprimem ideias e sensações coletivas. Padrões que repetimos independente de nossa vontade, e sutilmente se não conscientizados, determinam nossas ações.

Os exemplos clássicos que podemos encontrar em diversos contos são: o caminhar do herói, o amor eterno, o abismo da morte e o mundo transcendente, histórias que se retomam em diferentes épocas e locais.

Jung em seu método considera o valor simbólico dos fenômenos psíquicos internos, projetados em contos, sonhos, no corpo e nas formas de arte, como a pintura, poesia, música.
Embora ainda pouco estudado em universidades, Jung possui uma série de adeptos que continuam desenvolver sua obra, que aos poucos começa a ter maior representatividade no meio acadêmico. No campo prático de atuação, é sem dúvida o favorito daqueles que aderem a terapias holísticas e medicinais “integrativas” e “complementares”, sendo a base científica de muitas práticas, que envolvem desde óleos essenciais à terapias manuais, que lidam com a questão do corpo e artísticas que atuam com os atributos da alma.

No Brasil essa visão mais abrangente do ser humano como um fenômeno multifacetado de experiências não é algo novo. Em meados de 1954 a célebre Nise da Silveira, psiquiatra pioneira na introdução da psicologia analítica nas terras tupiniquins e fundadora da *Casa das Palmeiras, foi entusiasta das teorias Junguianas em relação aos transtornos mentais. Nise e Jung trocaram cartas e experiências, onde a mesma retrata seu trabalho com a prática da arte em doentes mentais. O suíço chega a citar que o trabalho de Nise reforça as teorias por ele levantadas sobre o inconsciente coletivo.

*Casa das Palmeiras: Instituição idealizada pela Dra.Nise da Silveira que propõe a reabilitação mental através de atividades expressivas, em regime aberto. Nas palavras da idealizadora: “A casa das palmeiras é um pequeno território livre”.

Tão grande foi a estima de Jung por Nise e seu trabalho, que em questionamento levando sobre o futuro da psicologia analítica Jung afirma:

“O Futuro da Psicologia Analítica está no Brasil”.

Será que o Brasil como um país multicultural onde diversos povos convergem e se misturam, tem capacidade de transcender aos seus desafios políticos e sociais? Quais os desafios inconscientes de nosso povo? Qual o inconsciente coletivo brasileiro que envolve as questões de preconceito, intolerância, autoritarismo e radicalismo, tão vigente em nosso país? Podemos realmente ser esse futuro? Essas questões só Jung explica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Silveira, Nise da. Jung: Vida e Obra. Paz e Terra, 2003.
Grinberg, Luiz Paulo. Jung: o Homem Criativo. FTD, 2003.
Jacobi, Jolande. A Psicologia De C.G. Jung Uma introdução às Obras Completas. Ed. Vozes,2013.
Jaffé, Aniela. Memórias, Sonhos e Reflexões. Ed Nova Fronteira, 2019.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Idealizador e editor chefe do Blog Psique Anime. Caminhou pelas diversas áreas do conhecimento: esporte, saúde, educação, psicologia e veio parar aqui, em entretenimento. Jovem aficionado pelo universo dos Animes, Mangás e cultura oriental. Trago toda minha bagagem como nerd e estudante. Minha vida é algo que não consigo descrever melhor do que um Mosaico de inspirações.

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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